sábado, 15 de novembro de 2014

33ºDOMINGO COMUM ANO – A


A PARÁBOLA DOS TALENTOS (Mt. 25, 14-3O) que nos conta a história do Mestre que se ausenta aparece, muitas vezes, nos Evangelhos. Vimos esta ausência na Parábola dos Vinhateiros homicidas que meditámos, uns Domingos atrás, na Parábola das Dez Virgens que era o tema da meditação do Domingo passado e, hoje, na nesta Parábola dos Talentos que acabamos de ouvir. Todas estas Parábolas têm um denominador comum: trata-se dum senhor que se ausenta e que, tempos mais tarde, vem para colher os frutos…A Parábola dos Talentos contem uma lição cheia de modernidade. O “terceiro servo” é condenado sem ter cometido qualquer acção má. O seu único erro consiste “em não fazer nada”: não arrisca o seu talento, não o faz frutificar e o conserva intacto, num lugar segura (J.A.Pagola).

EXTREMA CONFIANÇA DE DEUS: A CRIAÇÃO ENTREGUE NAS NOSSAS MÃOS: A ausência de Deus, deixando o homem entregue à sua liberdade faz pensar numa grande interrogação que já vem desde o Antigo Testamento: Que faz Deus? Dorme? Está surdo? Onde está o teu Deus, perguntam os descrentes, os sem Deus, ao homem bíblico e a mim que me encontro desamparado (Salmo 42 e 11)? Onde estava Deus, durante o Tufão que se abateu sobre as Filipinas, há uns tempos atrás, causando milhares de mortos, perguntavam-se os habitantes das ilhas afectadas e nós, juntamente com eles? Onde está Deus nas grandes epidemias que dizimam vidas? Uma pergunta que se coloca a propósito das grandes catástrofes e até genocídios. Jesus não insistiria tanto sobre a ausência do Mestre, se a nossa crença espontânea não tivesse a tendência de ver em Deus o autor de tudo o que passa debaixo sol: Inconscientemente ou conscientemente dizemos: pois é, Deus enviou-lhe esta doença, esta prova. Coitado!..Ora o Mestre da Parábola dos Talentos ausenta-se. O Criador ausenta-se, entra no repouso do Sétimo Dia e entrega a criação nas nossas mãos, confiando-a à nossa liberdade para que a possamos gerir e dominar. Concluímos, Deus não quer o nosso mal. Ele não só está inocente sobre aquilo que nos acontece, mas é inimigo das nossas desgraças como o revelam os actos de Cristo. Deus não quer as catástrofes, mas os acontecimentos que se sucedem convidam-nos à reflexão. Santo Inácio dizia: “entrega-te à acção (livremente, vigorosamente) como se Deus fizesse tudo e tu nada. Agradece a Deus como se tu tivesses feito tudo e Ele nada”. Nós temos por isso de agradecer a Deus, porque nos fez à sua imagem, criadores. Os talentos vêm do Mestre, de Deus, mas a nós pertence encarregar-nos deles e de tomarmos conta de tudo aquilo que a vida nos oferece, nos propõe e nos impõe. E o que sucedeu e sucede com aqueles a quem Deus confia os Talentos para os gerir?

A NÓS A GERÊNCIA E O FAZER FRUTIFICAR OS TALENTOS: A primeira coisa que temos de dizer é que Deus apenas nos confia os talentos, mas não nos diz o modo como os vamos pôr a render. Isso depende da nossa imaginação, do nosso trabalho. O que devem fazer os servos da Parábola é puxar pela cabeça e empregar todo o seu engenho e esforça. O Decálogo (as Dez Palavras) manda-nos que amemos a Deus e ao próximo, mas não nos diz o modo de fazê-lo. Enumeram-se simplesmente as condutas que balizam o caminho: “não mataras, não cometas adultério...” Se saímos delas, escorregamos e faltamos ao amor. O amor não se comanda. Não vem do exterior, mas sai de dentro de nós mesmos. O terceiro servo não é censurado pelo que fez mas pelo que deixou de fazer. Pecado de omissão. Não digamos: eu não mato nem roubo, nem vejo o meu pecado, porque Jesus no Capítulo 25 de S. Mateus diz-nos: “Eu tive fome e não me deste de comer…” O valor das nossas vidas mede-se sobretudo pelo bem que omitimos ou deixamos de fazer. O rico avarento é condenado não porque faz boas refeições, mas porque não olha nem sequer para Lázaro que jaz à sua porta (Lc.16, 19-31) Concluindo: O Senhor não nos diz como amar, mas dá-nos um coração para amar. Deus está ausente enquanto causa de tudo aquilo que acontece mas ele está presente nas nossas decisões e nas nossas acções. Está activo na energia e inteligência que os servos gastam para colocar a render os talentos. Mas não está presente na inércia daquele que enterrou o talento na terra, imagem da sepultura e da morte. Quem não trabuca não manduca e apressa a sua morte cavando a sua sepultura. Ao contrário os dois primeiros servos entraram para a sala do banquete, na alegria do seu Senhor.

UMA AUSÊNCIA-PRESENÇA: De certa maneira, o Mestre ausentou-se, mas, em realidade, Ele está presente e nós é que temos o poder de cortar com Ele e, então, ficamos abandonados à nossa sorte e tornamo-nos ramos secos como nos explica Jesus no Evangelho de S. João15.1-8. Nós fazemos frutificar os talentos na medida em que permanecemos n’Ele e Ele permanece em nós. Tudo o que fazemos de bom, é obra de Aliança, de matrimónio entre a liberdade do homem e a liberdade de Deus. A nossa parábola dos talentos põe o acento do lado da liberdade do homem, mas mesmo assim é o Mestre que nos confia os talentos, esperando a volta de Cristo. Daqui até lá, não fazemos senão um com o Pai e o Filho no Espírito (Marcel Domergue)

DEUS E O TERCEIRO SERVO; QUEM É O NOSSO DEUS? É lastimosa e até perversa a imagem que o terceiro servo, nos faz de Deus. Chega a chamar preguiçoso a Deus, pois diz: “Eu sabia que tu és um homem severo que colhes onde não semeaste, tive medo e enterrei o teu talento”. Para ele, Deus é preguiçoso, pois colhe onde não semeou. Que acusação!.. Nesta mesma tentação, caíram Adão e Eva que se deixaram levar pela voz do tentador: Deus é mentiroso, diz o demónio, porque Ele vos disse: se comeis deste fruto morrereis. Ora isto não é verdade. Pelo contrário: se comeis do fruto, vós vos vereis como Deus e Deus não quer isso, porque Ele é invejoso e avaro da sua natureza, dos seus bens e não os quer comunicar a ninguém Esta tese do tentador é completamente contrária à conduta de Cristo em Filipenses 2 (Ele que era de condição divina não fez valer ciosamente a sua condição de ser como Deus”). Eis aí, o inimigo do Homem que é inimigo da Vida. É a tentação de Prometeu, o deus grego, que quis roubar o fogo a Deus para ser como Deus. Traduzindo isto do Génesis em palavras mais compreensíveis, dizemos: temos também nós a tentação de ver a Deus como um senhor exigente, um vigilante cioso do seu dever, uma espécie de câmara de vigilância que nos surpreende nos mínimos actos, um juiz severo? Por graça do mesmo Deus, não vemos assim o nosso Deus, pois isso seria desconfiar d’Ele e a desconfiança é completamente contrária à fé.

PERGUNTAS: Que faço dos tesouros do reino que o senhor me encomendou? Como vivo o meu Baptismo, o meu Matrimónio? Como aprofundo a minha fé e a minha confiança em Deus? Como ponho a render a meu favor, a favor da minha família e dos outros, estes talentos que o Senhor me confiou? Como participo na missão de divulgar o Evangelho da alegria? Será válida a acusação que fazem aos cristãos, quando se diz que passam a vida a olhar o céu, esquecendo-se da terra? Como leio o Evangelho de Mateus Capítulo 25? Contento-me com presumir que conheço o Mestre (também o terceiro servo dizia que o conhecia, embora muito mal) e, depois, nada fazer para pôr a render o capital que me confiou?

CONCLUINDO: Feliz o servo fiel. Temos que prestar contas daquilo que nos foi confiado e é isso que constitui a nossa grandeza. Deus toma-nos de tal modo a sério que Ele nos torna responsáveis pela gerência dos seus bens. A todos pede para lhe darmos contas, mas Ele não pede a cada um a mesma coisa. Pede somente em função daquilo que a pessoa recebeu e que humildemente lhe pode oferecer. Não tenhamos medo de oferecer a Deus os frutos magros dos pequenos arbustos que somos, porque o que Deus nos pede é acreditar no amor que nos dá a nossa fecundidade. Uma atitude de medo como foi a do terceiro servo, não deve ser a nossa, mas sim um sentimento de confiança e abandono. É ISTO A FÉ!..

Bibliografia consultada: José António Pagola: BUENAS NOTICIAS e Marcel Domergue: DECOUVRIR LA PAROLE DE DIEU

P. José Augusto Alves de Sousa


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SEMANA DOS SEMINÁRIOS - ORAÇÃO


Até ao dia 16 novembro, celebra-se em Portugal a Semana dos Seminários, este ano com o tema “Servidores da Alegria do Evangelho”.

Aqui fica uma oração que todos podemos ainda rezar durante estes dias.


Fonte: padrehugo.com

ACOLHER E COMUNICAR A ALEGRIA DO EVANGELHO


“É a marca de quem permanece no amor de Deus”
Uma catequese vocacional para a infância
«… a alegria do Evangelho não é uma alegria qualquer!
Tem a sua razão de ser no «saber que se é acolhido e amado por Deus»

Papa Francisco, 15 de Dezembro de 2013

Semana dos Seminários



Celebramos de 9 a 16 de novembro, a semana dos seminários.

Nela somos chamados a mergulhar, rezar e partilhar com os seminários.

D. Manuel Felício, traça o perfil de padre que deseja sejam : "testemunhas e anunciadores da alegria do Evangelho".


Partilha da sua nota pastoral em  Semana Seminários_nota_bispo_guarda

domingo, 9 de novembro de 2014

DEDICAÇÃO DA IGREJA DE S.JOÃO DE LATRÃO - 32º DOMINGO COMUM ANO A


A HISTÓRIA E A TRADIÇÃO: Em todos os Domingos do Ano litúrgico, celebramos Cristo vivo no meio de nós que se nos dá na Palavra e no Pão. Ora, eis que hoje a Liturgia nos convida a celebrar a festa duma das quatro grandes Basílicas de Roma, a de S. João de Latrão, cuja festa da Sua dedicação a Igreja celebra. A dedicação duma Igreja é a consagração dum edifício a Deus.  
COMPREENSÃO DOS SÍMBOLOS: Nós, os cristãos, vivemos, fazendo memória dos acontecimentos do passado, mas o passado conta, quando nos projecta para o futuro. Esta celebração da Igreja de S. João de Latrão serve para nos lembrar o tempo em que a Igreja saiu da sombra das catacumbas e veio à luz do dia, sujeita como estava anos e anos perseguida, durante o Império Romano. Foi no tempo do Imperador Constantino que isto aconteceu. Ao celebrar a festa duma Igreja, como hoje a desta Igreja de S. João de Latrão, a Igreja quer recordar-nos que, através dum edifício, celebramos a própria Igreja, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo. Mais concretamente, a Igreja de Deus que a Basílica de Latrão simboliza e representa é, hoje, no meio do mundo, a morada de Deus, um testemunho vivo da presença de Deus na caminhada histórica dos homens.

O TEMPLO DO RESSUSCITADO: Na passagem do Evangelho de hoje, João 2,13-22, vemos que Jesus pegou num chicote de cordas e expulsou os vendilhões do Templo. Muitos de nós desejaríamos que hoje Jesus fizesse o mesmo: limpar todos aqueles e aquelas que dentro e fora da Igreja se entregam a explorar os mais frágeis, a servir unicamente os seus interesses e à prática da corrupção. Mas, fixemo-nos na frase onde passa a mensagem e vejamos o que Jesus nos quer dizer realmente: “Destruí este Templo em três dias e eu o levantarei”. Bem sabemos que ao dizer estas palavras, o povo as entenderia mal, porque significavam um voltar-se contra o Templo e soavam, portanto, a blasfémia diante daqueles que veneravam o Templo de pedra mais do que o Deus do Templo. Mas Jesus falava do Templo do seu corpo. Este Templo corporal não desempenhará a fundo a sua função senão no dia em que será destruído e reconstruído. É o corpo espiritual de Cristo que encherá então o universo, o corpo misterioso da Ressurreição. A segunda leitura amplifica ainda esta noção de Templo-Corpo, quando Paulo diz que o Templo de Deus somos nós. Em cada um de nós habita o Espírito de Deus. Somos morada de deus. E isto não se restringe apenas aos crentes, mas os crentes têm como missão anunciar uma presença activa de Deus que concerne a todos os homens. 


FAZEI DA CASA DE MEU PAI UMA CASA DE ORAÇÃO E NÃO FAÇAIS DELA UM MERCADO: Jesus quer que o nosso corpo, como o corpo da Igreja, sejam reconhecidos como morada de Deus. Numa cultura marcada pela frivolidade, é bom recordar que o nosso corpo é Templo do Espírito Santo. O respeito do nosso corpo brota do facto de sermos baptizados em Cristo e sermos seu corpo… Num mundo marcado por interesses diversos, convém recordar que o mundo é criação de Deus e, daí, a ecologia para fazer que este mundo seja verdadeiramente sinal de Deus Criador, seja cosmos (mundo adornado e embelecido) e não caos. Num mundo marcado pelo individualismo, é necessário descobrir o valor da comunidade.
PRESENÇA ESPIRITUAL: O tema da presença espiritual não está ligado a qualquer parte da terra nem a qualquer construção humana. Uma presença espiritual está ou poderá estar em cada um de nós e exige que a missão da Igreja como a missão de cada um de nós como cristãos seja igualmente espiritual. Que quer dizer espiritual? Quer dizer que a missão nasce de fé. Esta fé é uma fé concretizada em obras: em termos concretos dar auxílio, em primeiro lugar à nossa família, aos mais próximos, mas depois alargando os horizontes e ajudando, onde as pessoas mais precisam: lares de idosos, pessoas abandonadas, pessoas que não contam na sociedade. Mas não é preciso irmos longe para vivermos esta exigência da missão. Podemos vivê-la em nossa casa, quando damos a mão a alguém que necessita da nossa ajuda. Esta missão está também no reconhecimento das falhas de cada um. Por exemplo, é normal que entre os casais haja diversos pontos de vista sobre determinados assuntos. Mas cada um em família deve saber reconhecer as falhas e ter capacidade de pedir perdão. Hoje um padre pode fazer uma homilia que vá ao encontro das pessoas e amanhã poderá não lhe sair tão bem. Sãos os nossos limites. E esta a condição humana. A reconciliação com os nossos limites, pode dispensar-nos de muitos dissabores e desentendimentos. Não será mal meditarmos no texto de Mateus 25,31-45 (José Frazão).
PERGUNTAS: É no Templo onde encontramos Deus? Quem reconhecer o Templo, encontra o verdadeiro Deus? O Templo era tão belo que fazia sonhar com Deus… e Jesus de Nazaré aparece demasiado pequeno para dar conta de Deus que se imagina muito grande e todo - poderoso? Somos capazes de fazer a passagem entre o Deus de nossos sonhos para o homem da Galileia? Estamos persuadidos que é n’Ele que Deus foi inteiramente exprimido, revelado? Adeus aos templos fabricados pelas mãos dos homens por mais belos e sumptuosos que sejam cheios de arte a carregados de ouro? Continuarão eles a sinalizar-nos Deus? Ou são meros lugares turísticos? Uma certeza: é no homem que Deus se diz uma vez e para sempre...
P. José Augusto Alves de Sousa S.J.


domingo, 2 de novembro de 2014

FIÉIS DEFUNTOS


UM JARDIM TODO FLORIDO E CHEIO DE VIDA.
Um jardim florido e todo cheio de vida é o nosso mundo, embora pensemos o contrário. Não é simplesmente mundo, mas cosmos, que quer dizer um mundo ornamentado, criado por Deus. Ele disse e continua a dizer que tudo é muito bom. É, neste mundo assim que os homens dos ambientes rurais, pegam na enxada ou manobram o tractor, para revolver e cultivarem a terra, colhendo dela, saborosos frutos que se transformam em deliciosos manjares, quando passam pelas mãos de nossas mães carinhosas que se esmeram para que tudo seja belo e bom. Colhemos os frutos frescos que a terra nos dá. E toda a gente saboreia as boas frutas, o bom vinho e a leveza do bom azeite!.. Pela Primavera e verão corremos para as romarias, celebramos a festa do padroeiro, com música e bons comes e bebes. É tudo um mundo em festa, um jardim de vida que salta à vista. E, deste mundo rural, damos um salto até às cidades e, então, aí, quantos expressões de vida, nas ruas movimentadas, nos teatros, nos cinemas, nos campos de futebol…

O ESPECTÁCULO DA MORTE
E, no entanto, neste jardim da vida entra também a MORTE que desafia a VIDA e, mais tarde ou mais cedo, acaba por aparentemente vencer. Nas aldeias, toca o sino grande que ecoa por vales e serras e nos traz uma má notícia, muito contrária à dos sinos mais pequenos que tocam os aleluias no dia da festa da Páscoa. E, de boca em boca, passa a notícia. Quem morreu hoje? Ficamos a saber que morreu tal e tal, uma notícia célere que invada toda a aldeia. Nas grandes cidades, deparamo-nos com um carro da funerária e nele vai alguém que nos deixou, embora, para nós, seja um anónimo…A morte passa pelos indivíduos pelas colectividades e pelas mesmas instituições. Tudo está sob o seu domínio. Todo o humano está condenado a morrer. E quanto mais florescente é a vida, mais trágico é, por vezes, o espectáculo, quando a morte passa, como por um campo de batalha. A vida é uma luta sem tréguas contra a morte. Comer beber e cuidar-se são operações que poderíamos chamar tácticas que não afastam para longe a morte. Os pequenos e grandes cemitérios estão bem à vista nas nossas aldeias e cidades e sobre eles se levanta dominadora a morte. Mas será mesmo assim!..

A VIDA VENCE A MORTE
Também sobre os cemitérios se levanta a vida, porque o destino do homem não é nem pode ser a morte. O seu destino é a vida. Nada mais certo para o homem que a necessidade da morte, mas nada mais certo para o cristão que a existência da vida depois da morte: “o que crê em mim ainda que morra viverá”(Jo.11,25). Esta palavra de Jesus pronunciada numa ocasião solene, antes de despojar a morte de sua presença na pessoa de Lázaro, é a premissa e o argumento da ressurreição de todos os crentes.
“Não se perturbe o vosso coração. Na casa de meu Pai há muitas moradas”. A misericórdia do Senhor não termina e não acaba A sua compaixão envolve-nos desde a manhã e pela noite fora, como um manto de luz. Esta profissão de fé que se encontra no livro das Lamentações recolhe os grandes atributos com que Deus se apresenta a si mesmo a Moisés (Ex.34, 6-7).
“Pai nas tuas mãos entrego o meu Espírito”. O texto das Lamentações recolhe o lamento de um homem esgotado, cansado, próximos dos umbrais da morte. Mas este homem, assim abatido, não cai no desespero numa vida sem esperança. Nesta situação difícil não deixa de confiar em Deus (Salmo 102). Como Jó: “eu creio que o meu Redentor vive”. Confiança num Deus misericordioso e fiel que ao longo da Bíblia nos confirma que não abandona os seus Filhos.

COMEMORAÇÃO DE TODOS OS FIÉIS DEFUNTOS. DE QUE FAZEMOS MEMÓRIA? Certamente que fazemos memória dos nossos mortos, familiares e amigos mas a nossa oração estende-se também a todos os homens e mulheres que nos precederam. Devemos ainda fazer memória sobretudo do nosso baptismo que anda associado à morte. Este dia dos fies defuntos é uma recordação especialmente difícil, mas neste dia. em que recordamos os nossos irmãos defuntos, não esqueçamos a recordação do nosso baptismo como recomenda o Apóstolo Paulo na Carta aos Romanos 5,3-9. Aqui, Paulo lembra a vinculação entre a morte e o baptismo. Ao baixarmos às águas baptismais nos unimos à morte de Cristo e à esperança da sua Ressurreição. Não é em vão que nos funerais, há muitas coisas que recordam o nosso baptismo, o manto que cobre a urna, o Círio Pascal que se acende durante a cerimónia litúrgica, a aspersão com a água benta. É bom que estas cerimónias evidenciam aquilo em que acreditamos e que não se transformem num acto de magia. E acreditamos que a morte ao pecado como acontece no dia em que recebemos o baptismo nos une à vitória de Cristo sobre o mal. Se morremos com Cristo, acreditamos que também viveremos com Ele; pois sabemos que Cristo uma vez ressuscitado de entre os mortos já não morre. A morte já não tem sobre Ele qualquer domínio.

PALAVRAS RECONFORTANTES
Consolemo-nos uns aos outros com as palavras da Liturgia deste Dia. Saber consolar é dom do Espírito Santo que é Espírito consolador. Morreu…Não sabemos bem onde o puseram…Não sabemos bem o que é feito dele ou dela, mas confiamos no Senhor que tem palavras de vida eterna. A ti que choras, se me amas, não chores. Se pudesses ver e ouvir o que eu agora vejo, a luz que tudo invade e penetra, certamente que apagarias tuas lágrimas com esse lenço de luz…Estamos nas mãos de Deus. Seguimos-te porque te queremos mas não sabemos como encontrarmo-nos contigo. Eu marcarei um encontro com Cristo e tu estarás certamente presente e convida, da minha parte, a tua e minha Mãe, a Virgem Maria!...

P. José Augusto Alves de Sousa S.J.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS

Os cegos, os coxos, o pobre são declarados felizes, não porque eles são coxos, cegos e pobres, mas porque Cristo vem para os pôr de pé, levantar, lhes dar a luz e os enriquecer. Os milagres serão então os sinais daquilo que Cristo traz. Não podemos separar as Bem-Aventurança do texto de Lucas 4,16-19. Uma Boa Nova é anunciada aos pobres (Lucas 7,18-23)

 

O QUE É SER SANTO? Para o livro dos Actos dos Apóstolos, a palavra “santo aplica-se a todos aqueles e aquelas que pertencem à comunidade dos crentes. Neste sentido também nós somos santos porque pertencemos ao povo de Deus. Porem só Deus é Santo, porque somente n´Ele se pode confiar, somente Ele é fiel, a rocha no qual me posso apoiar. Ele é a minha fortaleza, a minha salvação, como dizem os Salmos. Eu sou santo, porque participo na santidade de Deus e não por qualquer mérito da minha parte. Sede Santos como Deus é Santo. Muitas vezes, a palavra santo, se identificou com o ser-se perfeito, Não podemos deixar que se considere santo somente aquele que está adornado de virtudes morais, embora também as virtudes concorram para a santidade, mas no sentido bíblico, santo é aquele que Deus escolheu. Isto não significa que somente alguns são chamados por Deus, mas significa que a santidade de cada um é fruto duma “santificação” que tem a Deus por autor (O Concílio Vaticano II no Capítulo V da Constituição Lumen Gentium fala da Vocação Universal à Santidade na Igreja)

Os cegos, os coxos, o pobre são declarados felizes, não porque eles são coxos, cegos e pobres, mas porque Cristo vem para os pôr de pé, levantar, lhes dar a luz e os enriquecer. Os milagres serão então os sinais daquilo que Cristo traz. Não podemos separar as Bem-Aventurança do texto de Lucas 4,16-19. Uma Boa Nova é anunciada aos pobres (Lucas 7,18-23)

FELIZES… A felicidade das Bem-Aventuranças não é para o futuro, mas para agora. Porque é que a felicidade é para agora, para hoje? Porque nada daquilo que nos pode acontecer, inclusive, uma peste, uma calamidade natural, o enfraquecimento do nosso corpo, a perseguição e até mesmo, a própria morte, nada nos pode impedir de cumprir o nosso destino de homens e mulheres e de respondermos à vocação a que somos chamados, comportando-nos como verdadeiros filhos de Deus: “filhinhos, vós agora já sois filhos” (João). Mesmo diminuídos por circunstâncias externas ou internas, a doença, por exemplo, seremos homens e mulheres por completo e a nossa miséria inclusive pode ser revertida para nosso bem. É o que significa a Cruz. Jesus passou por ela para chegar Ressurreição. Só nos podemos diminuir se recusamos amar. Nada nem ninguém nem qualquer situação adversa, nos poderá separar do amor e de nos realizarmos à Imagem de Deus. Paulo dizia: ninguém me pode separar do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.

SEMELHANÇA COM DEUS
Neste dia da festa de Todos os Santos, damos graças a Deus por todos aqueles e aquelas cuja vida impregnada pelo Evangelho é, ainda hoje, um sinal. Nós englobamos nesta acção de graças os santos, conhecidos e desconhecidos, membros da igreja ou simplesmente pertencentes à humanidade. É a grande festa da esperança porque homens e mulheres chegaram a brilhar como luz nas trevas e a humanidade pode depositar confiança neles. A vida fecunda dos santos anima ainda hoje a nossa humanidade. Mortos, mas vivos em Cristo ressuscitado, tornaram-se solidários de toda a humanidade, tornando-se corpo de Cristo, reino de Deus. Com que palavra podemos caracterizar a festa de hoje? Os nossos atingiram a semelhança com Deus e é esta palavra que melhor caracteriza este dia de Todos os Santos
Cada um à sua maneira e em seu tempo viveu o Evangelho e se deixou guiar pelo Espírito de Cristo. As suas vidas reais ou amplificadas nas biografias que se escrevem sobre eles, enfeitadas para edificar, são por vezes divertidas. Mas eles foram nas suas pessoas caracterizados sobretudo pela sua entrega a Cristo. Admiráveis!.. Mas são sempre imitáveis? Muitas vezes acreditamos que sim. Mas cada um de nós deve encontrar o seu próprio caminho de santidade. Se os santos nos comunicam uma mensagem não é para seguirmos na vida como eles, mas para que cada um de nós encontre o seu próprio caminho até à semelhança com Cristo. Não podemos reproduzir a sua maneira de fazer ou querer imitá-los no seu caminho concreto para Cristo mas deixar-nos estimular pelo seu entusiasmo por Cristo, porque no sentido forte da palavra não há outro santo senão Cristo.

P. José Augusto Alves de Sousa S.J.


domingo, 26 de outubro de 2014

30º. DOMINGO COMUM ANO A


OS DOIS MANDAMENTOS  No Evangelho do Domingo passado, os fariseus e os herodianos armam a Jesus uma cilada, a propósito do tributo que devia ser pago a César (a Roma). No texto que hoje meditamos, há uma nova pergunta que um fariseu, versado nas Escrituras, Doutor da Lei, coloca a Jesus, uma pergunta não menos ardilosa do que a do Domingo passado, como veremos a seguir. Os Juristas de Israel, entre os quais se evidenciavam os Doutores da Lei, gostavam de provar os conhecimentos que Jesus tinha sobre a Lei e, diversas vezes, o interrogam sobre a mesma. Para eles, o mandamento mais importante era o da observância do Sábado. Esse dia devia dedicar-se completamente ao repouso e a escutar a leitura da Escritura. Com o tempo, converteram a observância do Sábado numa carga pesada, sobretudo para a gente pobre com duras penas que deviam ser suportadas por eles. O Sábado deixou então de ser a festa do Senhor e converteu-se num dia triste cheio de prescrições ridículas que impediam as pessoas de mover-se, de cozinhar e, inclusive, de auxiliar os necessitados (Os Rabinos do tempo de Jesus tinham composto uma lista de 613 mandamentos: 365 proibições e 248 obrigações). Quando os Doutores da Lei perguntam a Jesus qual a Lei mais importante, esperam que ele cometa um erro, pronunciando-se contra a observância do Sábado, a lei mais importante para eles. Jesus, porém, adianta-se em responder e faz-lhes ver que, na Lei, o mais importante é o amor de Deus e o amor do próximo. Respondendo, agora, a um dos Doutores da Lei que lhe vem com a mesma pergunta: qual é o maior mandamento da Lei?
Jesus responde, de imediato e considera, como primeiro mandamento, o que se encontra no livro do Deuteronómio (6,59: “Amarás o Senhor Teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu ser”. Este primeiro mandamento distingue a Israel de todos outros povos que, diante dos seus deuses, só experimentavam medo e terror. Amar a Deus era o ideal mais alto do Israelita que começava ao sua oração da manhã com o chamado “SHEMA ISRAEL” (Escuta Israel: “ o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus…”). Mas Jesus evoca um segundo mandamento que se encontra no Livro do Levítico (19,18): “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. A diferença entre este preceito e o primeiro é que este (o segundo) poderia encontrar-se também noutras culturas. Esta era a chave de ouro de todas as éticas e uma prova fácil para reconhecer a veracidade do amor humano. “ Assim, o primeiro mandamento elevava o homem a uma dimensão vertical, pondo-o de frente com Deus. O segundo o guiava por uma caminho horizontal, ao encontro de todos os demais homens. Este texto conclui com uma conhecida frase de Jesus: “estes dois mandamentos contêm toda a Lei e os Profetas” (José-Román Flecha Andrés). O amor é o próprio espírito da legislação divina: Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e ao próximo como a ti mesmo. Ao colocar estes dois mandamentos como o eixo da legislação divina de toda a Escritura, Jesus põe, em primeiro lugar a atitude filial com respeito a Deus e a solidariedade inter-humana como o fundamento de toda a vida religiosa. Inclusive a correcta interpretação da Escritura (a Lei e os Profetas) depende de que sejam compreendidos e assumidos estes imperativos éticos. Concluindo, Jesus diz que tudo o que há na Escritura, a Lei e os Profetas, depende dos dois mandamentos de amor e que não fazem senão um único mandamento. Esta é um das chaves que deve orientar toda a nossa leitura da Bíblia e submeter esta leitura a encontrar o amor. Notemos que estes dois mandamentos que o Novo Testamento chama “semelhantes”, podemos chamá-los “idênticos”. O Evangelho de hoje mostra-nos que, para Jesus, o fundamento da relação com Deus e do próximo é o amor solidário. Jesus sintetiza todo o Decálogo e quase toda a legislação em seu princípio de amor fraternal e recíproco.

 Alguém poderá amar a Deus que não vê e até em quem não crê, amando simplesmente os outros e servindo-os? Pode amar-se a Deus sem o saber? 

O Texto de Mateus dá-nos a resposta a esta pergunta no Capítulo 25, 21- 45 do seu Evangelho: “ tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e recolhestes-me; estava nu e destes-me que vestir; adoeci e visitastes-me; estava na prisão e fostes ter comigo…Mas quando é que foi que isto aconteceu, perguntam-lhe os destinatários, admirados com esta declaração, ou melhor com esta revelação. E o Senhor respondeu-lhes: “ Todas as vezes que o fizestes ao menor dos meus irmãos, foi a Mim que o fizestes”. Estas palavras fazem que lancemos o olhar sobre tantos e tantas que dedicam a sua vida aos outros, sem serem ou se dizerem crentes, ao menos, exteriormente e confirma-se o que diz S. João na sua Carta: “quem disser que ama a Deus que não vê e não ama o seu irmão que vê, é mentiroso” (1ª Jo. 4,19-21). Quantas Organizações não-governamentais se entregam a serviço dos outros sem a etiqueta duma confissão religiosa. Pensemos, por exemplo, agora, nos voluntários que se entregam aos doentes do Ébola, nos países afectados por esta calamidade, correndo riscos de vida! Pensamos que é por simples filantropia. E pode ser. Mas, quem move as pessoas, desde o seu mais íntimo, a praticarem essa filantropia?
A favor destes, clamaram os profetas denunciando a exploração. Hoje diante da pobreza daqueles que não têm voz na sociedade, devemos cada um de nós, na medida do possível, sacudir o pó da passividade e recuperar a voz que muitas vezes perdemos diante de situações intoleráveis deste mundo chamado moderno e civilizado e volver ao essencial do Evangelho, ao mandamento principal, aos dois amores ao amor de Deus e ao amor dos irmãos.

Agradecemos ao Senhor por nos ter dado a conhecer o caminho do amor que revelou ao seu povo e damos sobretudo graças porque na nossa vida do dia - a - dia, podemos dar testemunho do Amor.
P. José Augusto Alves de Sousa, sj

sábado, 18 de outubro de 2014

29º DOMINGO COMUM: DAI A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS


Reflexão sobre as leituras do 29º Domingo Comum, Ano A: Is.45,1.4-6; 1ª.Tessalonicences 1,1-5b; Mateus 22, 15-21

DAI A CÉSAR O QUE É CÉSAR E A DEUS O QUE É DE DEUS. Conhecemos bem a cena que nos narra o Evangelho de hoje (Mt.22,15-21), onde se encontra como conclusão esta frase de Jesus: Dai a César o que é César e a Deus o que é de Deus. Ainda que os fariseus e os partidários de Herodes não se dêem bem, e até, por vezes, sejam inimigos declarados, contudo, nesta cena que nos descreve o Evangelho de hoje, estão de acordo, numa coisa: eliminar Jesus, pô-lo fora de cena e, por isso, lhe armam uma cilada. Mas antes de passaram à execução do que pretendem, não deixam, hipocritamente, de elogiar Jesus como Mestre, sublinhando três virtudes que o caracterizam. Admiram nele a sinceridade, a rectidão com que ensina o caminho de Deus e a sua independência no juízo que não se deixa arrastar pela acepção de pessoas. Depois desta descrição um tanto ou quanto florida, vem a cilada: fazem-lhe uma pergunta insidiosa, provocadora, calculando bem que a resposta de Jesus, fosse ela qual fosse, o comprometeria ou perante o povo, ou perante o Imperador Romano. A pergunta era simplesmente esta: “é lícito pagar o imposto a César ou não?” Se Jesus dissesse que não, imediatamente o acusariam, perante Pilatos, de rebelião contra Roma que então dominava a Palestina, carregando o povo de impostos. Se dissesse que imposto era legítimo e que deveria ser pago, então seria completamente desprestigiado diante do povo, sobretudo diante dos pobres que gemiam sob o peso duma cargo tão grande. A estes, Jesus amava intensamente e uma resposta que lhes fosse desfavorável, era o que pretendiam os fariseus. Jesus, porém, em vez de responder de imediato, pediu que lhes mostrassem uma moeda de Roma com a qual se deveria pagar o imposto. E logo os fariseus se prontificaram a apresentar-lhe um denário que um deles guardava no bolso e que tinha gravado, numa das faces, a efígie de Tibério César, Imperador Romano. É de notar que um Israelita piedoso não devia levar consigo moedas cunhadas com imagens humanas, mas evidentemente que estes tentadores que se mostravam como piedosos, esses podiam transgredir tranquilamente a Lei! Por isso, Jesus apressa-se a responder: se vós possuís essa moeda convosco e é com ela que negociais, que pagais as compras no mercado, então, pagai, também, com ela, o imposto ao Imperador, dai-lhe a moeda que lhe pertence: dai a César o que é de César e acrescenta ainda Jesus: dai a Deus o que é de Deus.

O ALCANCE DAS PALAVRAS DE JESUS: Nunca tão poucas palavras como as palavras desta frase tiveram tamanho eco na literatura religiosa e na história dos homens e nunca houve palavras que fossem tão distorcidas e manipuladas, conforme os interesses dos governantes e até da própria Igreja. O dito de Jesus: Dai a César o que de César e a Deus o que é de Deus é aproveitado, muitas vezes, pelos governantes para dizerem aos homens da Igreja que não se podem imiscuir em questões políticas. Outras vezes, são os homens da Igreja a recordar aos políticos este dito de Jesus para afirmarem o seu direito de defender e proclamar os valores do Evangelho. Às vezes, a mesma sociedade diz que os cristãos (Bispos, Padres e leigos) não se devem meter em política, esquecendo-se de que a política, no sentido grego não significa sempre o engajamento e militância em algum partido político, embora, também aí, os cristãos devem entrar para darem o seu contributo, através da Doutrina Social da Igreja, mas a política no seu sentido genuíno, tem um significado abrangente que diz respeito à Polis (cidade, em grego), isto é, ao compromisso de todo e qualquer cidadão de trabalhar e velar pelo bem comum. Todos os cristãos sabem, portanto, que é um dever de justiça e de caridade colaborarem, realmente, na busca e realização do bem comum da sociedade: Dai a César o que é de César. Mas os cristãos sabem também que nem sempre as leis humanas buscam o bem comum e até podem atentar contra o homem, favorecendo os grupos que têm força na sociedade. Em nome da modernidade, não se pode, por exemplo, favorecer as leis que atentam contra a vida humana, por exemplo, a lei do aborto (Gaudium et Spes).

PERGUNTAS A RESPEITO DO DITO DE JESUS. Claro está que esta passagem do Evangelho que lemos hoje, nos suscita uma série de perguntas: a fé tem alguma coisa a dizer no funcionamento das nossas sociedades laicas? A religião é um assunto totalmente privado e pode-se, como fazem alguns governos relegá-la para um assunto de consciência e proibir toda a expressão comunitária e pública do culto, como aconteceu, por exemplo, em Moçambique, num dado momento de sua história, logo a seguir à independência? Podem os homens que nunca ouviram falar de Deus nem do Evangelho levar uma vida e tomar decisões condizentes com o Evangelho, segundo a justiça e a verdade? Não serão esses homens verdadeiros filhos de Deus? Continuaremos a olhar para os dois domínios, o de Deus e o de César, como domínios totalmente separados: dum lado, o universo da fé e, do outro, um universo totalmente profano? Mas, se separamos estes dois universos, como podemos pensar que algo escapa a Deus, o criador e senhor de todas as coisas e de tudo quanto existe e que Ele não é fonte de quem tudo procede?!... Ora dá que reflectir sobre os textos do livro da Sabedoria 13 e de S. Paulo aos Romanos 1,20, em que se nos diz que tudo nos fala de Deus e nada escapa à sua lei!.. Podemos, assim, concluir, numa outra linguagem que tudo está abrangido pelo Amor de Deus, que quer que todos os homens se salvem a cheguem ao conhecimento da verdade!.. Estamos ao serviço de Deus, servindo os outros, mas não podemos servir-nos de Deus para impor as nossas escolhas aos outros. Se assim fosse, seria instrumentalizar a Deus a nosso favor. Olhemos para a primeira leitura, a leitura de Isaías. Ciro, rei dos Persas, ignorando a fé de Israel, vai cumprir o desejo de Deus e restabelecer o Povo à sua soberania. Deus toma Ciro pela mão direita e chama-o pelo seu nome. E, neste sentido, se pode dizer que Ciro, sendo um pagão, a Escritura fala dele, como o ungido e, portanto, como uma figura de Cristo. Evidentemente que este homem cumpre apenas o que é bem e, por isso Deus passa por Ele: “Eu te chamei pelo teu nome e te dei um título glorioso, quando ainda não me conhecias. Eu sou o Senhor e não há outro; fora de mim não há Deus”(Is.45,4-5).
NOTA. Hoje, é o Dia Mundial das Missões. Neste dia, vai ser beatificado o Papa Paulo VI que foi o que levou por diante o Concílio Vaticano II, depois da morte do papa João XXIII. Não somente levou por diante o Concílio, mas esforçou-se por o pôr em prática na Igreja Universal. Deixou-nos a belíssima Exortação Apostólica Evangelli Nuntiandi (8/12/1975), que podemos meditar com todo o fervor no dia de hoje, dia da sua Beatificação e Dia Mundial das Missões. Recordamos também a Mensagem, para este dia do papa Francisco que nos fala da grande urgência da missão ad gentes e da colaboração de todos nesta Missão: a Missão duma Igreja que deve estar sempre em “saída” para ir ao encontro dos homens e levar-lhes a Boa Nova da alegria: “Evangelli Gaudium”. MISSÃO, uma paixão por Jesus e por todos.


P. José Augusto de Sousa S. J.

DIA MUNDIAL DAS MISSÕES


Queridos irmãos e irmãs!
Ainda hoje há tanta gente que não conhece Jesus Cristo. Por isso, continua a revestir-se de grande urgência a missão ad gentes, na qual são chamados a participar todos os membros da Igreja, pois esta é, por sua natureza, missionária: a Igreja nasceu «em saída». O Dia Mundial das Missões é um momento privilegiado para os fiéis dos vários Continentes se empenharem, com a oração e gestos concretos de solidariedade, no apoio às Igrejas jovens dos territórios de missão. Trata-se de uma ocorrência permeada de graça e alegria: de graça, porque o Espírito Santo, enviado pelo Pai, dá sabedoria e fortaleza a quantos são dóceis à sua acção; de alegria, porque Jesus Cristo, Filho do Pai, enviado a evangelizar o mundo, sustenta e acompanha a nossa obra missionária. E, justamente sobre a alegria de Jesus e dos discípulos missionários, quero propor um ícone bíblico que encontramos no Evangelho de Lucas (cf. 10, 21-23).
1. Narra o evangelista que o Senhor enviou, dois a dois, os setenta e dois discípulos a anunciar, nas cidades e aldeias, que o Reino de Deus estava próximo, preparando assim as pessoas para o encontro com Jesus. Cumprida esta missão de anúncio, os discípulos regressaram cheios de alegria: a alegria é um traço dominante desta primeira e inesquecível experiência missionária. O Mestre divino disse-lhes: «Não vos alegreis, porque os espíritos vos obedecem; alegrai-vos, antes, por estarem os vossos nomes escritos no Céu. Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse: “Bendigo-te, ó Pai (…)”. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que estais a ver”» (Lc 10, 20-21.23).
As cenas apresentadas por Lucas são três: primeiro, Jesus falou aos discípulos, depois dirigiu-Se ao Pai, para voltar de novo a falar com eles. Jesus quer tornar os discípulos participantes da sua alegria, que era diferente e superior àquela que tinham acabado de experimentar.
2. Os discípulos estavam cheios de alegria, entusiasmados com o poder de libertar as pessoas dos demónios. Jesus, porém, recomendou-lhes que não se alegrassem tanto pelo poder recebido, como sobretudo pelo amor alcançado, ou seja, «por estarem os vossos nomes escritos no Céu» (Lc 10, 20). Com efeito, fora-lhes concedida a experiência do amor de Deus e também a possibilidade de o partilhar. E esta experiência dos discípulos é motivo de jubilosa gratidão para o coração de Jesus. Lucas viu este júbilo numa perspectiva de comunhão trinitária: «Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo», dirigindo-Se ao Pai e bendizendo-O. Este momento de íntimo júbilo brota do amor profundo que Jesus sente como Filho por seu Pai, Senhor do Céu e da Terra, que escondeu estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelou aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Deus escondeu e revelou, mas, nesta oração de louvor, é sobretudo a revelação que se põe em realce. Que foi que Deus revelou e escondeu? Os mistérios do seu Reino, a consolidação da soberania divina de Jesus e a vitória sobre satanás.
Deus escondeu tudo isto àqueles que se sentem demasiado cheios de si e pretendem saber já tudo. De certo modo, estão cegos pela própria presunção e não deixam espaço a Deus. Pode-se facilmente pensar em alguns contemporâneos de Jesus que Ele várias vezes advertiu, mas trata-se de um perigo que perdura sempre e tem a ver connosco também. Ao passo que os «pequeninos» são os humildes, os simples, os pobres, os marginalizados, os que não têm voz, os cansados e oprimidos, que Jesus declarou «felizes». Pode-se facilmente pensar em Maria, em José, nos pescadores da Galileia e nos discípulos chamados ao longo da estrada durante a sua pregação.
3. «Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado» (Lc 10, 21). Esta frase de Jesus deve ser entendida como referida à sua exultação interior, querendo «o teu agrado» significar o plano salvífico e benevolente do Pai para com os homens. No contexto desta bondade divina, Jesus exultou, porque o Pai decidiu amar os homens com o mesmo amor que tem pelo Filho. Além disso, Lucas faz-nos pensar numa exultação idêntica: a de Maria. «A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador» (Lc 1, 46-47). Estamos perante a boa Notícia que conduz à salvação. Levando no seu ventre Jesus, o Evangelizador por excelência, Maria encontrou Isabel e exultou de alegria no Espírito Santo, cantando o Magnificat. Jesus, ao ver o bom êxito da missão dos seus discípulos e, consequentemente, a sua alegria, exultou no Espírito Santo e dirigiu-Se a seu Pai em oração. Em ambos os casos, trata-se de uma alegria pela salvação em acto, porque o amor com que o Pai ama o Filho chega até nós e, por obra do Espírito Santo, envolve-nos e faz-nos entrar na vida trinitária.
O Pai é a fonte da alegria. O Filho é a sua manifestação, e o Espírito Santo o animador. Imediatamente depois de ter louvado o Pai – como diz o evangelista Mateus – Jesus convida-nos: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11, 28-30). «A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 1).
De tal encontro com Jesus, a Virgem Maria teve uma experiência totalmente singular e tornou-se «causa nostrae laetitiae». Os discípulos, por sua vez, receberam a chamada para estar com Jesus e ser enviados por Ele a evangelizar (cf. Mc 3, 14), e, feito isso, sentem-se repletos de alegria. Porque não entramos também nós nesta torrente de alegria?
4. «O grande risco do mundo actual, com a sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 2). Por isso, a humanidade tem grande necessidade de dessedentar-se na salvação trazida por Cristo. Os discípulos são aqueles que se deixam conquistar mais e mais pelo amor de Jesus e marcar pelo fogo da paixão pelo Reino de Deus, para serem portadores da alegria do Evangelho. Todos os discípulos do Senhor são chamados a alimentar a alegria da evangelização. Os bispos, como primeiros responsáveis do anúncio, têm o dever de incentivar a unidade da Igreja local à volta do compromisso missionário, tendo em conta que a alegria de comunicar Jesus Cristo se exprime tanto na preocupação de O anunciar nos lugares mais remotos como na saída constante para as periferias de seu próprio território, onde há mais gente pobre à espera.
Em muitas regiões, escasseiam as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Com frequência, isso fica-se a dever à falta de um fervor apostólico contagioso nas comunidades, o que faz com as mesmas sejam pobres de entusiasmo e não suscitem fascínio. A alegria do Evangelho brota do encontro com Cristo e da partilha com os pobres. Por isso, encorajo as comunidades paroquiais, as associações e os grupos a viverem uma intensa vida fraterna, fundada no amor a Jesus e atenta às necessidades dos mais carecidos. Onde há alegria, fervor, ânsia de levar Cristo aos outros, surgem vocações genuínas, nomeadamente as vocações laicais à missão. Na realidade,  aumentou a consciência da identidade e missão dos fiéis leigos na Igreja, bem como a noção de que eles são chamados a assumir um papel cada vez mais relevante na difusão do Evangelho. Por isso, é importante uma adequada formação deles, tendo em vista uma acção apostólica eficaz.
5. «Deus ama quem dá com alegria» (2 Cor 9, 7). O Dia Mundial das Missões é também um momento propício para reavivar o desejo e o dever moral de participar jubilosamente na missão ad gentes. A contribuição monetária pessoal é sinal de uma oblação de si mesmo, primeiramente ao Senhor e depois aos irmãos, para que a própria oferta material se torne instrumento de evangelização de uma humanidade edificada no amor.
Queridos irmãos e irmãs, neste Dia Mundial das Missões, dirijo o meu pensamento a todas as Igrejas locais: Não nos deixemos roubar a alegria da evangelização! Convido-vos a mergulhar na alegria do Evangelho e a alimentar um amor capaz de iluminar a vossa vocação e missão. Exorto-vos a recordar, numa espécie de peregrinação interior, aquele «primeiro amor» com que o Senhor Jesus Cristo incendiou o coração de cada um; recordá-lo, não por um sentimento de nostalgia, mas para perseverar na alegria. O discípulo do Senhor persevera na alegria, quando está com Ele, quando faz a sua vontade, quando partilha a fé, a esperança e a caridade evangélica.
A Maria, modelo de uma evangelização humilde e jubilosa, elevemos a nossa oração, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma mãe para todos os povos e possibilite o nascimento de um mundo novo.
Vaticano, 8 de Junho – Solenidade de Pentecostes – de 2014.
FRANCISCO