quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A HUMILDADE NA QUARESMA


Entramos na Quaresma 2015 e a melhor maneira de entrar nela é pedir a humildade. Não pedimos a humilhação porque esta perverte e destrói, mas a humildade que é a verdade e a justeza humana e espiritual de que todos nós temos sede.

Durante este Quaresma, entremos no deserto e façamos memória daquilo que nos diz o profeta Oseias (Os.2), quando nos recorda que o Senhor conduziu Israel ao deserto para lhe falar ao coração. Só no espaço enorme do deserto podemos abrir o coração e dialogar com Aquele que nos ama. Ali, onde o silêncio é plano, se aprende a escutar os nossos gemidos interiores e quem é que os não tem, mas também nos chegam com maior acuidade os gemidos do mundo e como o mundo geme ferido pelas guerras, amarrado pelas servidões de todo o género!

Nesta Quaresma, apoiemos a nossa vida nos três pilares de que nos fala o Evangelho de S. Mateus de Quarta Feira de Cinzas: a ORAÇÃO que nos faz escutar a Deus, nos revela o nosso mal, no confronto com a tentação, mas nos revela também o Amor de Deus e a força do alto, o Espírito Santo. Não foi o Espírito Santo que impeliu Jesus para o deserto (Mc.1,12)? Com a força do Espírito, sairemos, como Jesus, vencedores da tentação da riqueza (faz que estas pedras se convertam em pão, 1ª tentação), do poder (tudo isto te darei, se prostrado me adorares, 2ª tentação) e da invulnerabilidade (deita-te daqui abaixo que os anjos de Deus virão em teu auxílio, 3ª tentação); o JEJUM que nos ajuda a escutar-nos a nós mesmos, e aferir a nossa relação com as coisas, isto é: as coisas são criadas para, através delas, louvarmos e reverenciarmos Aquele que as criou ou colocou ao nosso serviço; colocar as coisas ao serviço da vida espiritual; vencer, se acaso é necessário, depois dum discernimento, as afeições desordenadas para com as coisas e pessoas; a ESMOLA que me faz escutar os outros que gritam por um pedaço de pão material, porque têm fome e porque gritam também por outro pão não menos necessário: a consolação, a esperança e a confiança que depositam na minha amizade e entrega.

Nesta Quaresma, aproveitemos para retomarmos o nosso espírito, não para fazermos alguma penitência especial, mas para a elevação gradual do nosso coração para a contemplação de Deus Pai que nos criou, nos deu o seu Filho Jesus e nos santifica no Espírito Santo, porque a contemplação não é somente dos místicos, mas de todos os simples de coração. Tomemos a Quaresma como um tempo de libertação, um espaço para respirarmos, para libertar o nosso coração das angústias e dos medos, dos fantasmas que criamos. Aproveitemos também para revisitarmos os nossos hábitos. Quais são os que me tiram a independência e que não nos deixam voltar ao essencial, ao fundamental? Pensemos: encontramos tempo para falar, para sentar-nos e resolver a dois ou a três os nossos problemas? Ou mergulhamos, noite dentro, na Televisão, no Computador, na Internet e Facebook, sem uma palavra para o companheiro ou companheira que está a nosso lado e sem nos darmos conta até que, no dia seguinte temos um dia de trabalho e um compromisso social.

E, no silêncio da noite, a Quaresma convida-nos a repousar placidamente e a mantermo-nos vigilantes para não consentirmos os pensamentos “negativos” mas sim os pensamentos “positivos”, aqueles que, à maneira duma luz radiosa, alimentem a nossa esperança e nos fazem levantar as mãos para o Senhor que dá. Se pedimos e temos o coração aberto e as mãos estendidas para receber, o Senhor nos ensina a humildade e a humildade nos abre à verdade do nosso ser e daquilo que é a vida verdadeira. É preciso nesta Quaresma pedir e pedir sempre, porque pedir é reconhecer que eu não me dou a vida a mim mesmo, mas consinto em recebê-la e abrir-me à verdadeira Fonte. E a Fonte da vida jorra do lado aberto do Senhor que eu contemplo no alto da Cruz na Sexta-feira Santa e que na noite da Páscoa me transfigura com Ele. Não celebramos nós neste Domingo o Domingo da Transfiguração? Da antecipação da Ressurreição?

Concluímos: viver a Quaresma é colocar-nos à escuta do Espírito Santo. A Quaresma um dom a receber e não muitas coisas a fazer, embora estas são necessárias como nos aponta o Papa Francisco ao falar-nos na Mensagem para ao Quaresma que é necessário combater a indiferença e olhar para o outro. A nossa atenção aos outros, as nossas partilhas no grupos do C. V. X., nas Equipas de Nossa Senhora, no C.P.M. e noutros Movimentos das comunidades das nossas Paróquias devem ser enraizados em Jesus Cristo e num desejo grande de oração. Então, o Senhor poderá purificar o nosso olhar, abrir as nossas mãos, unificar as nossas riquezas e capacidades para as colocarmos ao serviço dos outros das nossas famílias e das mossas comunidades paroquiais. Assim a Quaresma elevada a este nível nos indica o caminho do despojamento do nossa egoísmo, do nosso “eu”. E não tenhamos medo de comprometer-nos por este caminho de verdade que é o caminho da Humildade.


Padre José Alves de Augusto de Sousa, SJ

Imagem do filme Il Vangelo secondo Matteo, Pier Paolo Pasolini.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

I Domingo da Quaresma


Todos os vossos caminhos, Senhor, são amor e verdade!

«Os acordes do Salmo 25, que hoje cantamos, trazem à tona os rumos e os caminhos de Deus, que são sempre bondade, verdade, ternura e misericórdia – caminhos intransitivos, entenda-se –, que se vão insinuando mansamente dentro de nós, mais ou menos como deixou escrito, no seu Diário, com data de 23 de janeiro de 1948, o grande escritor francês George Bernanos: «Que doçura pensar que, embora ofendendo-o, não deixamos de desejar, desde o mais profundo santuário da alma, aquilo que Ele deseja».
Ao entrarmos no tempo santo da Quaresma,
Devemos ter a coragem de atravessar a poeira dos caminhos
Intransitivos do nosso coração,
Isto é, de limpar as mentiras, ódios, raivas, violências, banalidades,
Que tantas vezes preenchem os nossos dias.

A Quaresma é tempo de nos expormos
Ao vendaval criador e purificador do Espírito,
Sem termos a pretensão de o querer transformar em ar condicionado.
Toma em tuas mãos, Senhor,
A nossa terra ardida.
Beija-a.
Sopra nela outra vez o teu alento,
A tua aragem,
E veremos nela outra vez impressa a tua imagem.
Tu sabes bem, Senhor, que somos frágeis.
Mas contigo por perto,
Seremos fortes e ágeis,
Capazes de abrir estradas no deserto,
A céu aberto.»

D. António Couto

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quaresma


«És pó, e ao pó voltarás»

Quando? Amanhã? No próximo ano? Daqui a 20 anos? Que importa... Esse grão de pó sobre a tua cabeça é o teu destino inelutável. Por isso emprega bem os teus curtos anos, converte-te, volta-te para Cristo, que só Ele te pode dar perdão e vida.
É assim que na Quarta-feira de Cinzas começamos a Quaresma, tempo de conversão e austeridade, mas também tempo de uma alegria contida, a alegria de um coração purificado. Trata-se de nos prepararmos para as festas pascais. A Quaresma é o caminho para uma festa!
«Quando jejuardes, não mostreis um ar sombrio, como os hipócritas, que desfiguram o rosto para que os outros vejam que eles jejuam. Em verdade vos digo: já receberam a sua recompensa» (Mateus 6,16).
Escutemos bem estas palavras e apliquemo-las como norma de conduta, não apenas na Quaresma mas em toda a nossa vida cristã, porque ela não é senão uma longa preparação para as festas pascais definitivas.
«Tu, porém, quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto, para que o teu jejum não seja conhecido dos homens, mas apenas do teu Pai que está presente no oculto; e o teu Pai, que vê no oculto, há de recompensar-te» (Mateus 6,17-18).
Que grandeza há no silêncio – não o silêncio nefasto da falta mas no da virtude, que é perfeito quando dele não se tem consciência – e que força se pode extrair dele. A alegria cristã é a simplicidade de uma fé, a seriedade de uma esperança, a vitalidade do amor.
Na Quaresma a liturgia despe-se dos seus aleluias e glórias, convidando-nos a um estreitamento de vida, a um despojamento do supérfluo, a um tempo de germinação escondida e profunda, iluminada sempre por uma esperança e uma espera. Ela convida-nos a entrar em nós mesmos para nos mergulhar nas fontes da vida, em Cristo. Ela incita-nos a reencontrar o nosso verdadeiro rosto num esforço de autenticidade e lucidez, na oração e na caridade, para que, modelados à imagem de Cristo, sejamos capazes de uma comunhão mais profunda no seu mistério.
Sim, porque o mistério de Cristo não é algo que esteja fora de nós; ele é o que nós somos e o que somos chamados a ser. O seu drama é o nosso. A nossa cruz não é outra que a de Cristo, é o seu amor em nós que a carrega. A nossa verdadeira vida é a vida do Ressuscitado em nós. Se a liturgia nos conduz pelos passos de Cristo é para nos ensinar o caminho que é também o nosso.
O drama que se evoca na Quaresma não é apenas a recordação de um acontecimento passado mas a atualização do drama de Cristo, aqui e agora, para nós, que nos coloca diante da opção decisiva da fé e do amor. Procuremos portanto estar em harmonia com o espírito da liturgia deste tempo e acolher a seiva de vida que nos oferece.


Um monge cartuxo
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 19.02.2015

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

“UM MENINO NASCEU PARA NÓS, UM FILHO NOS FOI DADO”


O Deus – Menino, o Deus que aprende a falar e andar
Ficaríamos certamente menos surpreendidos, se, no seu Natal, Deus tivesse tomado o corpo de algum homem adulto, poderoso, dum senhor de prestígio…Mas não foi assim. Ele tomou a forma de Menino. Ele é o Deus que aprende a falar, apesar de ser o Verbo, Palavra do Pai. É Aquele que deve aprender a andar, mesmo que o Salmo 19, 1-7 diga que “Ele vai dum extremo ao outro do mundo”.
No Natal, se celebrássemos o Pai – Natal, que não é o nosso caso, estaríamos longe daquilo que é o essencial, aquilo que conta, a celebração do Deus - Menino, o Deus – Criança - figura da humanidade dependente, que é necessário alimentar, vestir, assistir em tudo…O Filho de Deus vem até nós como toda a gente. E até mesmo como o último dos últimos, pois não há lugar para Ele entre os humanos e também entra a humanidade recenseada pelo Imperador Augusto. Jesus nasce entre animais num estábulo, fora da cidade. “ Veio junto dos seus e os seus não receberam”. Junto dos seus! Junto dos judeus, junto de nós, junto de mim… Mas o Menino acolhe sempre com o seu sorriso de graça. Cantarei eternamente as misericórdias do Senhor!

O Deus - Menino, o Deus que nos desconcerta
Em Deus - Menino, em Deus – Criança, em Deus – Bebé, ousamos dizer, aprendemos que Deus perde, por nós, todo o seu poder. N’Ele, recebemos a possibilidade de nos tornarmos “como Deus”, porque Deus se torna “como homem”. Vontade de semelhança e de unidade! Ele se desarma totalmente e se submete às escolhas da nossa liberdade. Ele faz-nos existir, dando-nos todo o poder sobre o mundo, sobre nós mesmos, sobre Ele mesmo: “Maria envolveu o seu Menino em paninhos e o colocou na manjedoura”. É por isso que, nos evangelhos, Jesus multiplica estas palavras: “ se tu queres”…; “aquele que quiser”… Ninguém é forçado a entrar na vontade de Deus. Sabemos apenas que uma criança obedece. Jesus obedeceu até à morte e morte de cruz. No berço, somos convidadas a ser criança, a esta entrega, obediente à vontade de Deus, por amor. Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor!
O Deus – Menino, o Presente Principal
O nascimento de Jesus foi um nascimento como os demais nascimentos. Não aconteceram milagres. Para não olharmos, de perto, o prodígio desconcertante do Verbo de Deus feito criança, nós enchemos o Natal de costumes que podem desviar a nossa atenção do essencial. Pela nossa casa dentro, pelas ruas da nossa cidade entra em cena o Pai - Natal, a árvore de Natal, o bom bacalhau, os presentes, os confeitos, o réveillon, as luzinhas…. Tudo isto é muito bom, porque nos recorda o Natal do Menino Jesus. Mas tudo isto só tem valor se nos ajudar a celebrar o essencial e se os nossos presentes não abafam ou colocam em último lugar o Presente Principal. E qual é o Presente Principal? “um Menino nasceu para nós, um filho nos foi dado” (Isaías); “nasceu-vos hoje na cidade de David um Salvador que ó Cristo Senhor” (Lucas). Ele é a vinda entre nós da “imagem de Deus - Invisível, primogénito de toda a criação”; Ele é a “ graça de Deus, fonte de salvação para todos os homens” (Carta a Tito); Ele realiza as núpcias definitivas de Deus com a humanidade: “o Teu autor te desposará”, diz a Escritura. Com Cristo e em Cristo, somos, com Deus, uma só carne. Em Cristo, somos um só corpo. Com efeito, o corpo da criança do presépio carrega já a humanidade inteira (Santo Agostinho). Por isso, Lucas descreve o nascimento desta criança no contexto dum recenseamento de toda a humanidade; Cristo cidadão do mundo. Mateus faz vir ao presépio os habitantes de longe representados pelos Magos Todos os confins da terra viram a salvação do nosso Deus!

LOUVAMOS O DEUS MENINO
Quando, não considerarmos qualquer pessoa como excluída ou marginalizada: “não havia, para Eles, lugar na hospedaria”;
Quando, formos capazes de O adorar com um coração de pobre como os pastores;
Quando, formos capazes de escapar ao ruído e bulício em que se converteu Natal para voltar a encontrar, no Presépio, o cumprimento das Promessas de Deus.
Oxalá que Maria, a Mãe do silêncio que guardava todas as coisas no coração, nos comova e nos desperte neste Natal. E que José, o homem justo, nos ensine também a virtude da fé de que ele foi exímio.
Oxalá que as nossas famílias saibam acolher, no seu seio, a Jesus que nunca falta com a sua Paz e alegria.
Apesar de estarmos num mundo meio adormecido, sintamos em nossos corações, uma ternura diáfana e profunda que nos leve a exultar de alegria. Que esta alegria não se confunda com as estridências deste dia de festa, mas que saibamos cantar com todo o coração, o cântico dos anjos: “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens e mulheres de boa vontade…”, esse hino que, cada vez mais, se torna menos perceptível no coração do nosso mundo, um mundo anestesiado, mas sedento de amor.
BOAS FESTAS!
P. José Augusto Alves de Sousa, SJ


sábado, 13 de dezembro de 2014

Ceia de Natal


3ºDOMINGO DO ADVENTO


REFLEXÃO SOBRE AS LEITURAS DO 3º DOMINGO DO ADVENTO ISAÍAS 61,1-2.10-11; LUC.1,46-54;1 TESSALONICENSES 5,16-24; JOÃO 1,6-8.19-28

A ALEGRIA FRUTO DUMA PROMESSA: FÉ SEM “VER”. Hoje, todas as leituras deste Domingo, e o Cântico de Maria (Magnificat) nos convidam à alegria, ao júbilo e à esperança. Paulo diz: “vivei sempre contentes. Orai sem cessar. Em todas as circunstâncias, dai graças, porque esta é, a vosso respeito, a vontade de Deus em Jesus Cristo (1 Tes.5,16-18). O profeta Isaías também nos anuncia um tempo novo, de vida plena e de felicidade sem fim. João Baptista no Evangelho leva os interlocutores a conhecerem Jesus a quem o Pai enviou e nisto consiste a alegria de João e a nossa alegria pela vinda do esposo que vem realizar as núpcias com a sua esposa, a humanidade. É, por isso que este 3ºDomingo do Advento se chama, na Liturgia, o Domingo Gaudete, um Domingo de júbilo, de alegria. Alegria, evidentemente, porque se aproxima o Natal, o dia do Nascimento do Verbo de Deus. Este nascimento de Jesus traz-nos à memória, o dia do nosso nascimento para a graça, o dia do nosso Baptismo. Nasce Jesus Cristo, segundo a carne, como nos relata a Escritura e renascemos nós, segundo o Espírito Santo, para sermos filhos de Deus, filhos no Filho, isto é, filhos por graça de Deus, no Filho de Deus por natureza. E que motivo maior do que este para darmos acção de graças e para termos alegria e grande júbilo?! A alegria não vem mencionada no Evangelho que hoje proclamamos, mas ela não está longe do mesmo Evangelho de João, porque, em 3, 29, o Baptista declara que a sua alegria é perfeita pela vinda de Cristo ao mundo, o esposo a quem pertence a esposa, a humanidade. Uma alegria que é a certeza da vinda de Deus ao nosso mundo, alguém que ainda não chegou. Isaías não vê a libertação de seu povo senão de longe. Maria não é ainda Mãe, mas alegra-se, juntamente com a sua prima Isabel. A esperança faz habitar, desde já, em nós, a alegria que esperamos: a gravidez é gozosa por causa dum nascimento futuro e Maria, grávida de Jesus, sente o Menino estremecer de alegria no seu seio. Tudo o que ela vive está ainda em gestão, mas com o selo da promessa de Deus que é fiel. “Darás á luz um Filho”.Jesus vem visitar-nos e a perspectiva da sua vinda nos torna já felizes: já e ainda não, dirá S. Paulo, no seu fervor de amor a Cristo, a Jesus Cristo, meu Senhor como o Apóstolo gosta de expressar-se! Isaías, a própria Maria, Isabel, Paulo e nós, alegramo-nos com a sua vinda. Mas nada pode justificar esta alegria senão a fé ouvida e entendida pelo coração, uma palavra que é uma promessa. Fé sem”ver”. Nós viveremos desta fé sem ver até ao último dia da nossa vida. E é necessário que assimilemos isto, neste Natal. A proximidade de Deus feito Menino, num bercito de criança, a sua passagem pela Palestina, a Morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus, as experiências místicas do nosso encontro com Ele na oração, são o alimento dessa nossa fé sem ver. Caminhamos, como se víssemos o invisível à imagem e semelhança dos crentes que no refere a Carta aos Hebreus no Capítulo 11: Pele fé, Abraão foi em demanda duma Terra, a Terra Prometida…Pela fé, Moisés tirou o Povo do Egipto e confiou que havia de passar com ele o Mar Vermelho, a pé enxuto, pelo poder de Deus…

TRÊS VEZES “NÃO”   , A HISTÓRIA DUMA VOZ E O “SIM” DE JOÃO: Um Profeta foi enviado por Deus chamado João. Ele veio para dar testemunho da luz para que, por meio dele, todos vissem a luz, ma a seguir, João faz uma precisão importante: ele não é a Luz, mas veio para dar testemunha da Luz. É impressionante a humildade e verdade de João pela resposta taxativa dada aos enviados dos sacerdotes e levitas que vêm de Jerusalém para lhe perguntarem se ele é Elias, o Profeta de fogo esperado como defensor da Majestade de Deus, se Ele é o Messias esperado. A isto, responde João, com toda a humildade e verdade: NÃO. Eu não sou a Luz, eu não sou Elias, Eu não sou o Messias esperado. Mas como ninguém pode viver apenas por negações, João também se define por um SIM. Eu sou uma VOZ que clama no deserto. Jesus, desde toda a eternidade, é uma presença escondida, interior a toda a humanidade, mas todas as palavras do passado (Elias, Isaías…) anunciavam e preparavam João e João anunciava e preparava Jesus: o próprio Jesus, no discurso da Ceia anunciava e preparava a vinda do Espírito Santo e a sua própria vinda como Cristo na glória. A Palavra circula, desde os começos da criação e não encontra descanso. Passa, mas em cada passagem, ela se enriquece com o que nós lhe retribuímos. Esta Palavra vem das origens. No princípio era o Verbo. E o Verbo era Deus e o Verbo se fez carne e habitou entre nós. Quando João diz que é uma voz esta voz de João não é a sua voz, mas uma voz que vem desde o começos, a voz criadora e salvadora e a alegria de João é, através da sua voz, ouvir a voz do esposo (Jo.3,29) que vem celebrar as núpcias com a humanidade. Todo o nosso ministério na Igreja, todas as nossas palavras, toda a nossa catequese, todas as nossas homilias, são para que todos crêem na Palavra que nos pode salvar, Jesus Cristo. Não é em vão que na missa do dia de Natal se medita no Prólogo do Evangelho de S. João que nos narra a aventura dessa Palavra, do Verbo de Deus, até chegar a nós em Jesus Cristo.

ENTRE VÓS ESTÁ ALGUÉM QUE VÓS NÃO CONHECEIS: Sim. Não o reconhecemos à primeira vista, mas está João e os nossos irmãos na fé para no-lo darem a conhecer. Se temos fé, este intercâmbio é mútuo. Eu recebo Cristo na minha vida e dou a conhecer isto aos demais. É a corrente interminável de fé-testemunho. Cristo é sem cessar a encontrar, a reconhecer e a dar a conhecer e deste conhecimento nasce o amor. Ele veio, Ele vira e voltará sempre. Certamente que as nossas tristezas e alegrais não passam, mas, com Cristo na nossa vida, passamos a vivê-las doutra maneira. Também as nossas alegrias permanecerão as mesmas, mas vividas doutra maneira. PORQUE DEUS ESTÁ CONNOSCO. BOAS FESTAS DESTE NATAL.

P. José Augusto Alves de Sousa S.J

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A IMACULADA CONCEIÇÃO - PADROEIRA DE PORTUGAL


O DOGMA. O dogma da Imaculada Conceição data de 1854 no tempo do Pontificado de Pio IX. Este dogma não deve ser confundido com a concepção virginal de Jesus, conceito que remonta às Escrituras. Quando invocamos a Virgem Maria, como se diz no Concílio Vaticano II, é necessário que nos acautelemos de todo o exagero e também duma demasiada timidez para podermos dizer verdadeiramente qual a vocação  e missão de Maria. Este dogma é datado de 1854, mas a sua afirmação remonta ao século V. A Imaculada Conceição é a afirmação, segundo a qual, Maria nasceu preservada do pecado original por obra e graça de Deus. Quanto à sua conceição, nada tem de extraordinário : Maria nasceu da união normal dum homem e duma mulher. Pela tradição cristã, conhecemos os nomes de seus pais: S. Joaquim e Santa Ana.

 Esta afirmação, tornada Dogma, em 1854, impôs-se muito cedo, na Igreja e ela é praticamente afirmada muitos séculos antes. Entre nós portugueses, desde os primórdios da nossa nacionalidade, se venera a Imaculada Conceição. Lembremos, por exemplo, a sua devoção no Concelho de Vila Viçosa e a vinculação à realeza. O Concílio de Éfeso realizado em 431 punha a seguinte pergunta : pode dizer-se que Jesus é verdadeiramente Filho de Deus? É este homem ou este Deus que morreu na Cruz? O Concílio, afirmando que Jesus é Homem e Deus põe de maneira nova a questão de Maria. Esta recebe o título de Mãe de Deus, a « Theotokos » (portadora de Deus) que é também uma afirmação cristológica.  Por causa da afirmação de Maria como Mãe de Deus (Theotokos), o Povo de Éfeso,  numa das Praças desta cidade, manifestou, na altura, publicamnte, o seu contentamento. A partir desta data, o culto de Maria até então bastante restrito, espalhou-se por toda a cristandade. Maria começa a ser festejada no dia 15 de Agosto, tanto na Igreja do Oriente como na do Ocidente.

MARIA CONCEBIDA SEM PECADO? É, também, a parir de 431 que se põe a questão da virgindade e da santidade de Maria. Até esta data, os Padres da Igreja tinham diversas opiniões sobre o assunto. De um modo geral, diziam que Maria, como todo o ser humano contraiu o pecado original. Santo Agostinho, por exemplo, defensor intrépido da doutrina do pecado original contra os chamados Pelagianos, sustenta que Maria não pode escapar ao pecado original, mas ela tem sido santificada, muito cedo. Esta interpretação não satisfez ao Oriente cristão. Mas a partir de Éfeso, põe-se verdadeiramente o problema: Jesus poderia ser formado por alguém em contacto com o pecado? Em resposta, os católicos afirmaram, de acordo com os ortodoxos, que Maria desde os começos, não conheceu o pecado.
No Ocidente, aceitou-se a doutrina de S. Tomás de Aquino e S. Bernardo que consideram a santidade de Maria como inicial, mas não original. S. Boaventura propõe a concepção seguinte : Maria não escapou ao pecado original, mas ela foi preservada pela graça de Deus.
Este tese é a que foi comumente aceite e que se tornou dogma na definição dogmatica de 1854. O Concílio de Trento voltará à doutrina do pecado original, mas não se prenuncia sobre Maria. Os tempos modernos vão ver florescer o culto a Maria e a festa da Imaculada Conceiçao se veio a impôr no dia 8 de Dezembro. O dogma foi definido em 1854 e, em 1858, é Maria que, nas Aparições de Lourdes, diz a Santa Bernardette : Eu sou a Imaculada Conceição. Assim se confirmva pela mesma boca de Maria, a doutrina sobre a Imaculada Conceição.

A MENSAGEM : Onde se encontra a raiz profunda para podermos proclamar Maria como Imaculada Conceição? Encontramo-la certamente em cada um de nós. Quem não deseja, por mais fracos e pecadores que sejamos, uma humanidade perfeita? Pois, certamente que, em Maria, encontramos o melhor do nosso ser. Que nostalgia sentimos da beleza que a todos nos seduz. Pois em Maria encontramos a beleza, a aurora da manhã, sem sombra e sem nuvem. Por isso, revestimos a Imaculada Conceição de manto azul que, neste Advento, nos aponta a morada de Deus, o azul celeste.
Maria é o esplendor da beleza, porque saiu da Beleza Infinita e Incriada. E, da cor branca do seu manto, nascem todas as cores que irradiam ao Norte, ao Sul, ao Oriente e Ocidente, iluminando todos os povos. Essa luz irradia doçura, bondade, obediência, sabedoria, acolhimento! Maria é forte em todos os momentos da sua vida. Ela é a vitoriosa do mal simbolizado na serpente, descrita na leitura que ouvimos do livro do Génesis. Esta vitória de Maria, criatura como nós,  diz-nos que, também nós, podemos vencer o mal e trabalhar por um mundo reconciliado, sem desequilíbrios e discordâncias, sem imperfeição nem corrupção : « Tu és formosa,  ó Maria! Em ti defeito não há ; criatura assim perfeita; Deus não fez; Deus não fará!..

« Senhora, de brancura imaculada,
Formosa estrela, rútilo Oriente ;
Em teu rosto, fulgor do Sol Nascente
Pois de Deus és divina madrugada!
            O teu olhar, fulgor da madrugada,
            De Paz e amor enche meu coração,
 E com fervor, Maria Imaculada,
 eis-me a cantar a tua Conceição. »


                                                           Padre José Augusto Alves de Sousa, S.J.

domingo, 7 de dezembro de 2014

2º DOMINGO DO ADVENTO


REFLEXÃO SOBRE OS TEXTOS: IS.40,1-5.9-11, 2PED.3,8-14, MC.1,1-8

O Advento é, para nós, cristãos, um tempo forte, durante o qual, não somente em particular, mas em comunidade, se espera o Senhor na fé e não na visão, como diz S. Paulo na Segunda Carta aos Coríntios 4,18. Esperamos o Reino, convictos de que, caminhando na Fé, ele está ao nosso alcance. Não experimentamos ainda a salvação como uma vida que não é mais ameaçada pela morte, pela doença, pelas lágrimas, pelo pecado... Há a salvação trazida por Cristo que nós conhecemos na remissão dos nossos pecados, mas a salvação plena, a salvação de todos os homens e de todo o universo ainda não chegou à plenitude, e por isso, o Advento será sempre a espera do “dia do Senhor” como pensavam os Judeus, o “dia da libertação”, o “dia do Messias”. O Advento leva-nos a esperar o Senhor no fim dos tempos. Nestes dias do Advento, não nos comportemos como se Deus fosse alguém que está para trás de nós, como se nós não encontrássemos Deus senão no Menino de Belém. Mas perguntemos, mais uma vez, neste Advento: Sabemos buscar a Deus no nosso presente e futuro, como sentinelas impacientes que vislumbram, na aurora, o Sol nascente, sentindo na coração a urgência da sua vinda? Deixamo-nos interpelar pelo grito do Padre Theilhard de Chardin: Cristãos, continuamos empenhados em alimentar sempre viva na terra, a chama, sempre vivo o desejo da vinda de Deus às nossas vidas?
OS DOIS ARAUTOS DO ADVENTO:    ISAÍAS E JOÃO BAPTISTA: A primeira leitura e o Evangelho utilizam a imagem duma estrada que evoca a longa marcha de Israel em direcção à Terra Prometida, ao repouso de Deus. Para o Senhor que nos ama nada é impossível. E Deus quer assim incutir esta confiança aos exilados da Babilónia destroçados por se verem privados da sua terra e, sobretudo, do seu Templo, onde ofereciam os sacrifícios e os holocaustos e onde dirigiam as suas orações a Deus. O Profeta que traz esta Boa Notícia, o PRIMEIRO ARAUTO do Advento é o PROFETA ISAÍAS que grita aos exilados de Babilónia: “abri na estepe um caminho para o nosso Deus” e o oráculo deste arauto começa com as palavras de Deus.”Consolai, consolai o meu povo”. Em todos os que sofreram, durante anos, o jugo da escravidão, a humilhação e o exílio, desponta um raio de esperança, neste anúncio do regresso à Terra de Israel. Esta voz é a voz de Deus que se identifica com o seu povo, porque, com ele, viveu também o exílio e, agora, se propõe Ele mesmo ir á frente da caravana a cominho da Terra Prometida. É esta, também, a imagem de confiança que se nos oferece a nós, na caminhada para a terra da salvação na confiança de que venceremos todos os obstáculos porque Deus está connosco, Temos que abrir uma clareira no deserto e rasgar uma estrada nas nossas vidas, uma estrada para Deus. Regressa a esperança e o povo se recordará sempre qual é a sua vocação, a fé como resposta à fidelidade de Deus que nunca o abandona. No Evangelho de S. Marcos, encontramos o SEGUNDO ARAUTO do Advento, João Baptista que, como o antigo arauto, também ele diz: “preparai os caminhos do Senhor e endireitai as suas veredas”. Mas o segundo arauto chama á conversão, isto é, à mudança de mentalidade e de costumes. Não basta nesta conversão dar um salto quantitativo, fazer esta ou aquele penitência, muito válida se feita com alegria interior, pois torna a vida uma verdadeira e nova criação da pessoa. Este segundo arauto chega a dizer que devemos fazer uma declaração pública dos nossos erros para nos reformarmos a nós mesmos e concorrermos, deste modo, para uma sociedade mais justa e fraterna. Não podemos ficar em palavras ou em boas intenções, mas operar uma reviravolta na nossa vida para podermos também operar uma reviravolta na sociedade. Este segundo arauto lembra-nos a nossa vocação e desperta-nos para estarmos vigilantes como dizíamos no primeiro domingo do Advento. E, em terceiro lugar, este arauto aviva a renovação da memória, lembrando o nosso baptismo na água e no Espírito. Foi assim que um dia o povo com Josué, atravessando o Jordão chegou à terra prometida. É para aí que caminhamos neste Natal e o segundo arauto não deixa de apontar esse personagem. Depois de João, há-de vir Outro. João é uma voz que clama no deserto, mas não a Palavra. Ele nem sequer é digno de lhe desatar as sandálias. E o seu baptismo será um baptismo no Espírito, o baptismo definitivo e purificador, porque sobre o baptizado descerá o vento Santo, sopro de Vida, o Espírito Santo.
A MONTANHA A NIVELAR, CONDIÇÃO PARA ACOLHERMOS A MENSAGEM DE ISAÍAS E JOÃO BAPTISTA: Quantas dificuldades temos para nivelar um pedaço de terra e nela plantar os nossos haveres. Hoje, tudo é mais fácil com os tractores e outros instrumentos agrícolas. A montanha de que fala Isaías é símbolo das nossas dificuldades que julgamos, às vezes, intransponíveis. A Bíblia fala muitas vezes do orgulho, símbolo dos montes elevados que desafiam as empresas dos homens e dos lugares altos onde os homens celebram os seus cultos e se entregam a devaneios idolátricos. As ravinas a preencher têm algo a ver com os nossos túmulos, com o vazio dos nossos túmulos, isto é, das dificuldades em que nos atolamos sem esperança de saída. São os naufrágios que cavamos! Com a vinda de Cristo, o homem renasce e a Escritura anuncia-nos o último inimigo a abater, a morte (1Cor,15,26). A conversão que nos é exigida é a conversão à vida. Mesmo que a terceira leitura, nos fale de reconhecer os nossos pecados, não pensemos numa conversão moral, porque esta não é senão a consequência da nossa volta à vida. E aquilo a que chamamos pecado, não se define, em primeiro lugar, como uma contravenção a uma lei, mas como aliança com a morte. Deus ao vir a nós em Jesus Cristo neste Natal não nos trará outra coisa senão a vida!..
CONCLUINDO. Fixemo-nos nas ravinas cheias e nas montanhas niveladas da primeira leitura. Isto é uma imagem da nossa conversão. Não deixemos neste Natal que se aproxima de encher os vales profundos nas nossas vidas caracterizados pelas separações tão dolorosas que apagam todos os nossos sorrisos e nos impossibilitam de apertos de mão pela distância que cavamos.

A liturgia de hoje nos convida à esperança, a crer que, no meio das dificuldades da vida, das perseguições que sofrem os cristãos e que no meio das realidades mais duras, é possível um futuro melhor, porque o Senhor é fiel para com aqueles que «assumem” os valores da verdade, da justiça, da fraternidade. Todas estas esperanças a que nos convidam as leituras de hoje, as lemos com Jesus, sobretudo neste tempo de espera alegra do Natal. Espera de um novo mundo, uma utopia certamente, mas a utopia vivida em Deus que gera uma esperança sempre jovem e mais bela. Que esta esperança não se apague no meio da crise, das dificuldades do dia-a-dia para podermos levar uma vida digna e fiel. Isto é Natal, isto é Jesus Cristo no meio de nós. E não é Ele o EMANUEL?

       Padre José Augusto Alves de Sousa S.J.


Presépio de Machado de Castro na Basílica da Estrela - Lisboa


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

São Francisco Xavier



Então Jesus, chamando a Si os discípulos, disse-lhes: «Tenho pena desta multidão, porque há três dias que estão comigo e não têm que comer. Mas não quero despedi-los em jejum, pois receio que desfaleçam no caminho».
Disseram-Lhe os discípulos: «Onde iremos buscar, num deserto, pães suficientes para saciar tão grande multidão?» Jesus perguntou-lhes: «Quantos pães tendes?» Eles responderam-Lhe: «Sete, e alguns peixes pequenos». Jesus ordenou então às pessoas que se sentassem no chão. Depois tomou os sete pães e os peixes e, dando graças, partiu-os e foi-os entregando aos dis­cípulos e os discípulos distribuíram-nos pela multidão. Todos comeram até ficarem saciados. E com os pedaços que sobraram encheram sete cestos. (Mt 15, 32-37)

REFLEXÃO
Este milagre consiste em partilhar fraternalmente alguns pães que, confiados ao poder de Deus, não só são suficientes para todos, como inclusivamente sobram. O Senhor convida os discípulos para que sejam eles a distribuírem o pão pela multidão. Desta forma, instrui-os e prepara-os para a futura missão apostólica: deverão levar a todos o alimento da Palavra de vida, o do Sacramento. Cristo está atento à necessidade material, mas quer dar algo mais. É a compaixão de Deus por cada um de nós, mas também a im­portância do serviço da caridade para com o próximo.

PROPOSTA DE ORAÇÃO PARTILHADA
Jesus, ensina-me a multiplicar o Teu amor, como o fez São Fran­cisco Xavier. Para que este milagre aconteça, necessito simples­mente de Te oferecer o que eu tenho, o que eu sou, nada mais… nada menos… Tu multiplicarás estes poucos, ou muitos, dons para o bem de todos. Com humildade, ofereço-Te os meus talentos, consciente de que os recebi para os entregar aos demais. Peço--Te que abras o meu coração à compaixão pelo próximo e ao compartir fraternal.