sábado, 12 de julho de 2014

O REINO


SE!
“Se o grão de trigo não morre, fica só.
Se cai na terra e morre, dá muito fruto”. 
Jesus atuou assim. Não fundou nada, não quis ser o Rei-Messias, 
Rejeitou a tentação da popularidade, 
Não escondeu a verdade para se proteger. 
Semeou-Se. 
E o fruto é a humanidade que continua a crer n’Ele, cada vez maior, 
Apesar de todos os messianismos que são os piores abrolhos, 
Os que mais afogam a semente. 
O grão de trigo de Jesus morreu, 
Ressuscitou na comunidade que acreditou n’Ele, 
E continua a ressuscitar nas pessoas que O seguem. 
É uma profunda lição para o nosso “apostolado”, 
O nosso anúncio de Jesus: 
Semear-se, sem espetáculos, falando pouco 
e atuando sempre segundo o evangelho. 
A colheita é assunto de Deus; o nosso é semear.

                                                             José Enrique Ruiz de Galarreta



Acção de Graças e Despedida










Foi celebrada na passada quinta-feira, dia 10, uma Eucaristia de Acção Graças e despedida do padre Hermínio Vitorino. Foi presidida por ele e concelebrada pelos Padres José Augusto Sousa e Manuel Vaz Pato.
Estiverem presentes muitos paroquianos, elementos dos grupos que têm sido por ele acompanhados e ainda muitos amigos, que encheram  a Igreja  para agradecer a Deus pelo seu trabalho e dedicação.
Os Escuteiros animaram a celebração com a sua presença e os seus cânticos, bem preparados e adequados ao momento que se vivia.
Na oferta simples de um pequeno ramo de flores, procurámos expressar a nossa gratidão, por estes quase cinco anos de serviço e dedicação à nossa comunidade Paroquial, bem como os sinais do amor de Deus que deixa em cada um nós.
Rezámos juntos associando-nos ao envio do Padre Hermínio para a nova missão que lhe é confiada e a todas as suas intenções. 
No final da Celebração houve ainda oportunidade de saudar e cumprimentar o Pároco que se despede para abraçar a nova missão, que o levará para a Paróquia da Charneca da Caparica - Pragal.

Seguiu-se um jantar convívio/partilhado, e houve emoção, alegria, esperança e muita amizade entre todos.



domingo, 22 de junho de 2014

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo


«Como é bom, como é belo, viverem unidos os irmãos» (Salmo 133,1). Saboreemos esta Alegria, o Pão e o Vinho da Alegria, nesta celebração da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, bem unidos e reunidos à volta do único Senhor da nossa vida, Jesus Cristo. Tradicionalmente, neste Dia, o Senhor da nossa vida presidirá e abençoará com a sua Presença, caminhando connosco, no meio de nós, em solene procissão, os caminhos das nossas aldeias e cidades. Quer isto dizer que o pálio (pallium) de Deus atravessará as nossas aldeias e cidades. O pálio de Deus é o manto (pallium) de Deus, os braços carinhosos com que nos abraça e nos envolve, e nos pede para fazermos outro tanto, enchendo de graça e de esperança todos os nossos irmãos. Verdadeiramente, num mundo em crise como este em que vamos, parece que voltamos a viver, como dizia S. Paulo aos Efésios, «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). Entenda-se: sem esperança, porque sem Deus no mundo, connosco, no meio de nós.
Jesus Cristo é Deus presente no nosso mundo todos os dias. E o pálio é o manto, o abraço, com que nos acarinha e envolve. De pálio (pallium) vêm os cuidados paliativos, que não são apenas os cuidados médicos que são prestados aos nossos doentes terminais; são sobretudo a expressão de um amor maior, de um manto maior e mais quente, que nos envolve e nos salva em todas as situações (Gianluigi Peruggia, L’abbraccio del mantello, Saronno, Monti, 2004).
Dá-nos, Senhor, um coração novo,
Capaz de conjugar em cada dia
Os verbos fundamentais da Eucaristia:
RECEBER, BENDIZER e AGRADECER,
PARTILHAR e DAR,
COMEMORAR, ANUNCIAR e ESPERAR.

Dá-nos, Senhor, um coração sensível e fraterno,
Capaz de escutar
E de recomeçar.

Mantém-nos reunidos, Senhor,
À volta do pão e da palavra.
E ajuda-nos a discernir
Os rumos a seguir
Nos caminhos sinuosos deste tempo,
Por Ti semeado e por Ti redimido.

Ensina-nos, Senhor,
A saber colher
O Teu amor
Semeado e redentor,
Única fonte de sentido
Que temos para oferecer
A este mundo
De que és o único Salvador. 


D. António Couto

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A TRINDADE: TRÊS EM UM, COMUNHÃO DE AMOR


Um só Deus em três pessoas distintas, foi o que aprendemos na Catequese, aquilo em que, no passado, acreditaram milhares e milhares de cristãos e cristãs e aquilo em que também nós hoje continuamos a acreditar. Chamamos a esta verdade da nossa fé cristã, o Mistério da Santíssima Trindade. Um só Deus em três pessoas distintas? Três em um? Nisso temos que acreditar, ainda que, em realidade, a Escritura nunca nos fala da Trindade a propósito de Deus. Ela não diz: eles são três ou: ele é três. A Escritura não faz contas. Mas se não nos fala de Trindade, a Trindade foi objecto de muita investigação pelos teólogos, ao longo de séculos. Contudo, apesar dessa muita investigação e de tudo aquilo que se escreveu sobre a Trindade, ainda hoje nos continuamos a perguntar: Como podemos explicar verdadeiramente a Trindade? Como deixar de a explicar, se ela constitui o coração da fé cristã? Não confessamos nós: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo? Damos uma primeira resposta, dizendo: não são três deuses mas um só Deus em três pessoas distintas. O nosso Deus é Trindade, três em um, mas como se chegou aqui? Através da razão? Empresa difícil, como se pode ver nas grandes reflexões filosóficas e teológicas dos nossos antepassados. Mas esse esforço não foi, nem é em vão. Ele ajuda-nos a reavivar a nossa fé e a nossa confiança no Pai, a acolher a salvação que nos trouxe o seu Filho Jesus e a sentirmos sempre viva a presença do Espírito Santo que nos dá força, coragem e que nos consola nas maiores dificuldades da vida. A Escritura fala-nos, assim, do Pai, do Filho e do Espírito Santo para exprimir aquilo a que podemos chamar a “invasão” ou a corrente salutar do amor de Deus na nossa humanidade. “Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho Unigénito para que todo o que crê nele não pereça mas tenha a vida eterna…” (Jo.3,16)
Continuando, dizemos ainda: A fé na Trindade e, para nós, objecto de oração, como o foi e é, para todos os grandes santos do passado e do presente, embora, claro está que a nossa oração não se dirige à Trindade que é um dogma, mas ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Devemos também acolher na nossa fé e na nossa oração de louvor e de acção de graças todas as reflexões feitas no passado para se penetrar no Mistério, porque isto nos ajuda também na vida segundo o Espírito. Tanta coisa boa nos vem desse passado e nos é prometido para o futuro!.. Mas, apesar de todas essas coisas boas, a Igreja, na sua meditação interior que alimenta a sua história, considerou e considera sempre que o melhor caminho para alimento da oração foi e é o trazer à luz, a sua vivência de séculos sobre a Trindade.
Eis essa história de vida. A palavra Trindade foi introduzida no vocabulário cristão logo desde os tempos apostólicos. No nosso baptismo nos tornamos filhos ou filhas de Deus, irmãos ou irmãs de Cristo, envolvidas (as) do Espírito de Santidade. Nos Evangelhos, o baptismo de Cristo é a única manifestação do Pai, do Filho e do Espírito Santo que nos é contada. Há gestos simples como o sinal da Cruz que nos põe em presença dos três. Descobrimos a grandeza e a manifestação deste mistério através de tantos irmãos nossos que alimentaram a sua vida na contemplação e no saborear as maravilhas do amor do Pai por nós que nos deu o seu Filho para elevar a nossa natureza humana á vida de Deus e nos dá o seu Espírito, para nos fazer entrar na corrente de amor que une o Pai e o Filho. As nossas orações  terminam por um Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo ou então: Pai, nós te pedimos, por Jesus na Unidade do Espírito Santo. No momento da Proclamação do Evangelho, os fiéis traçam um tríplice sinal cruz sobre a fronte, na boca e no peito. Esta é uma das marcas da veneração do Evangelho. No Credo, proclamamos a nossa fé no Pai Todo- Poderoso, em Jesus Cristo, Filho único do Pai e no Espírito Santo, Senhor que dá a vida. Finalmente não podemos esquecer a Liturgia, toda ela dirigida ao louvor, do Pai do Filho e do Espírito Santo, através dos hinos e dos ritos, da proclamação da Palavra e das aclamações
Poderíamos exprimir minimamente tudo o que acabamos de dizer com esta comparação arriscada: o Pai, é o princípio, a fonte; o Filho, é o rio e o Espírito Santo é o braço do estuário que verte a água no oceano do mundo: “ ide por todo o mundo, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo…”(Mt.28, 19). Tudo é embebido neste oceano de Amor e de Vida que é o Espírito de Deus.
Mergulhamos neste oceano de Amor pela comunhão: comunhão connosco mesmos, comunhão com as pessoas, as coisas, a vida; comunhão que no meio dos problemas nos abre sempre a uma reconciliação a um acordo, numa palavra, ao amor. Comunhão é muito mais do que estar de acordo ou coincidir. É juntar os ânimos e comungar entre nós à imagem da Comunhão por excelência que existe na Santíssima Trindade. Quem quer amar como o Pai, o Filho e o Espírito Santo há-de começar por aprender a cantar ávida, a vibrar com a beleza da criação, a estremecer diante do mistério, a romper as cadeias, a abrir sulcos para que a semente desabroche viçosa; há-de aprender a curar as feridas e a manter viva a esperança dum mundo melhor. Aprender a viver, vibrar com a beleza das coisas, cantar a vida, arriscar a amar como o Pai, o Filho e o Espírito Santo é penetrara na intimidade da Trindade.
Nunca acabaremos de compreender tudo aquilo que nos foi ensinado pelo Verbo de Deus. Contudo é na nossa relação íntima com Ele que a Trindade nos acolhe e nós entramos na Comunhão de Amor que é o nosso Deus.

P. José Augusto de Sousa S.J. 



sábado, 7 de junho de 2014

Solenidade de Pentecostes

O texto luminoso do Livro dos Actos dos Apóstolos 2,1-11 mostra-nos todos reunidos no Cenáculo e varridos ou recriados pelo vento impetuoso do Espírito, que varre as teias de aranha que ainda nos tolhem, e pelo seu fogo que nos purifica. O Espírito senta-se  – bela e significativa expressão! – sobre nós, novo Mestre que orienta e guia a nossa vida. Verificação: eis-nos a falar outras línguas, dádiva do Espírito! Milagre: cessam incompreensões, divisões, invejas, ciúmes, ódios e indiferenças, e nasce um mundo novo de comunhão e comunicação plenas, pois todos nos entendemos tão bem como se se tratasse da nossa língua materna, da palavra antes das palavras, divina e humana lalação. Chame-se-lhe confiança, intimidade, ternura, amor. Impõe-se, nesta bela comunidade, uma atitude de vigilância permanente, pois será sempre grande a tentação de querer levar o Espírito à letra! E aí está a advertência vinda dos Coríntios, cujo falar em línguas ninguém entende (1 Coríntios 14,2), sendo preciso o recurso a intérpretes (1 Coríntios 14,28).  

D. António Couto




domingo, 1 de junho de 2014


Cristo PARTE, mas PERMANECE na COMUNIDADE.
 

Cristo garante: "Estarei convosco todos os dias, até ao fim dos tempos mundo..."
Mas esse trabalho não dependerá só de nossas forças... Por isso os envia a Jerusalém "para aguardar o Espírito Santo, reunidos em oração, com Maria, mãe de Jesus".
Como Maria e os apóstolos reunidos no cenáculo,  devemos REZAR e invocar o Espírito Santo. 
Cristo já tinha afirmado: "Sem mim nada podeis fazer..." Por isso, a igreja não começa com a Ação... mas com a Oração, com Maria, Mãe de Jesus (e da Igreja)...
A Ascensão de Cristo ao céu não é o fim de sua presença entre os homens, mas o começo de uma nova forma de estar no mundo.
Sua presença acompanha com sinais a nossa Missão evangelizadora. Deus está presente e envia-nos como seus apóstolos.  



segunda-feira, 26 de maio de 2014

VI Domingo da Páscoa

Se amares, descobrirás um mundo novo
Se me amardes, guardareis os meus mandamentos. Tudo começa com uma palavra cheia de delicadeza e respeito: se me amardes… «Se»: um ponto de partida tão humilde, tão livre, tão confiante. Não se trata de uma ordem (deveis observar), mas de uma constatação: se amardes, entrareis num mundo novo.
Sabemo-lo por experiência: quando se ama, o sol ilumina-se, as ações enchem-se de força e de calor, de intensidade e de alegria. A vida floresce como uma flor espontânea.
Guardareis os «meus» mandamentos, diz. «Meus» não tanto porque prescritos por mim, mas porque recapitulam toda a minha vida. Se me amardes, vivereis como Eu! Se amas Cristo, Ele habita-te os pensamentos, as ações, as palavras, e transforma-as.
Então começarás a ter o seu sabor de liberdade, de paz, de perdão, de boas relações, a beleza do seu viver. Começarás a viver a sua vida boa, bela e feliz. Ama, e o que queres, faz (Santo Agostinho).
Se amas, não poderás ferir, trair, derrubar, violar, ridicularizar. Se amas, só poderás socorrer, acolher, abençoar. E isto por causa de uma lei interior bem mais exigente do que qualquer lei externa. Ama, e vai onde te leva o coração.
Numa espécie de comovente e persuasiva monotonia, Jesus repete sete vezes neste excerto: vós em mim, Eu em vós, estarei convosco, virei a vós. Através de uma palavra de apenas duas letras, «em», fala do seu sonho de comunhão.
Eu no Pai, vós em mim, Eu em vós: dentro, imersos, unidos, íntimos. Jesus que procura espaços no coração. Sou raiz unida à mãe vida, gota na fonte, raio no sol, cintilação no grande braseiro da vida, brisa no vento.
Não vos deixarei órfãos. Não o sois agora e nunca o ficareis: nunca órfãos, nunca abandonados, nunca separados. A presença de Cristo não é para conquistar, não é para alcançar, não é distância. Já está dada, está dentro, é indissolúvel, fonte que nunca seca.
Muitos compreendem a fé como tensão para um objeto de desejo que nunca é alcançado ou como recordação de um tempo dourado que se perdeu. Mas Jesus rebate esta atitude: funda a nossa fé sobre a plenitude, não sobre o vazio; sobre o presente, não sobre o passado; sobre o amor por uma pessoa viva, e não sobre a nostalgia.
Estamos já em Deus, como um bebé no ventre da sua mãe. E se não é possível vê-la, há porém mil sinais da sua presença, que o envolve, aquece, alimenta, embala.  
E, por fim, o objetivo de Jesus: Eu vivo e vós viveis. Fazer viver é a vocação de Deus, a teima de Jesus, o seu trabalho é o de ser na vida dador de vida. É muito belo saber que a prova última da bondade da fé está na sua capacidade de transmitir e guardar humanidade, vida, plenitude de vida.
     
     P. Ermes Ronchi
     In LaChiesa.it
     SNPC

     Imagem net

domingo, 18 de maio de 2014

V Domingo da Páscoa



«Eu sou o caminho, a verdade e a vida», «Em casa de meu Pai há muitas moradas», «Quem Me vê, vê o Pai».

Jesus apresenta-se como o Caminho, a Verdade e a Vida… e diz-nos que no coração do Pai onde todos temos um lugar, mas também que não chegaremos ao Pai sem passar por Ele, pelo Filho cuja vida dada foi gasta por cada um de nós, numa doação total, até à morte. 

Procuremos caminhar com Jesus, os seus passos levam-nos pelo caminho do amor, do serviço e da entrega... essa é a direção que não engana e nos fará chegar à Casa do Pai.



segunda-feira, 28 de abril de 2014

Tempo Pascal

Mestre _ onde moras? Vinde e vereis (Jo. 1,38)
Jesus chama-te para fazeres a Páscoa com Ele. Chama-te para fazeres a passagem, para fazeres a viagem, para morares com Ele na viagem, nesta viagem da tua vida em direcção a Deus Pai para que não te limites a uma mera passagem por locais e gentes, mas sim a transformares-te primeiro para que possas transformar e concriar o mundo com Deus. Tal será possível desde que aceites que Jesus e o Pai venham a fazer morada em ti.
Repara que a Eucaristia não é possível sem o teu, nosso, trabalho. Sim, esta Eucaristia que voltámos a celebrar nesta Quinta-feira Santa não é possível sem o nosso trabalho e trabalho em equipa. Repara, para o Baptismo é necessária água, a substância mais comum à superfície da Terra, mas para a comunhão de /com Cristo é necessário pão e vinho que não existem espontaneamente na Natureza. Esta é uma mensagem maravilhosa para nós. O Pai quer precisar de nós, quer contar connosco, com o agricultor, com o armazenista, com o vinhateiro e, já agora, com um enólogo, para que o vinho seja bom.
Como sabes, Deus não precisa de nós, mas quer contar connosco para que sejamos concriadores com Ele. Que convite extraordinário. A Páscoa não se limita a uma passagem de Deus pelas moradas do Egipto, como no Antigo Testamento, mas, com Jesus, tens um convite para que também tu faças a viagem da tua vida, acompanhado por Cristo, construindo um mundo melhor para o teu próximo.
Com Jesus, a Páscoa é uma passagem que pretende ressuscitar-nos para a vida eterna que se começa a construir hoje, agora, neste momento em que lês, em clima de oração, para que perguntes a Jesus «Onde moras?» e Ele te diga «Vem ver!».


    Paulo Lopes (CVX)

sábado, 26 de abril de 2014

O ofício de consolar


Em Tempo Pascal vem muito a propósito debruçarmo-nos sobre uma expressão muito própria dos Exercícios Espirituais, na 4ª semana do seu percurso, dedicada inteiramente aos mistérios da Ressurreição do Senhor. 

A graça que se pede nesta semana não é de fácil compreensão. Vejamos: “pedir graça para me alegrar e gozar intensamente de tanta glória e gozo de Cristo nosso Senhor”. (EE, 221) Se há sentimentos muito desejados, o da alegria é dos que ocupa os lugares mais altos da escala. Nascemos para ser felizes - dizemos e desejamos - e a graça coloca-nos num desafio ainda mais alto: uma alegria e gozo intensos. Não será desejar uma utopia? Critica-se muitas vezes o cristianismo que promete uma felicidade no além, enquanto aqui na terra vamos “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. A realidade limitada e pecadora que vivemos pessoalmente e vemos no mundo que nos rodeia martela-nos sem cessar, provocando esta dúvida: Alegria intensa, já aqui, onde? 
Dando o benefício da dúvida, já que a Ressurreição de Jesus é, por si mesma, um facto extraordinário, passemos ainda a uma consideração apresentada por Santo Inácio nesta 4ª semana: “reparar no ofício de consolar que Cristo nosso Senhor traz e compará-lo com o modo como os amigos se costumam consolar uns aos outros”. (EE, 224)  

A Ressurreição de Jesus dá-nos, pela fé, a certeza de que a morte, o sofrimento, o desespero não têm a última palavra. Não apenas quando falamos da experiência limite da nossa morte física, mas também das experiências quotidianas de morte: aos nossos desejos, às nossas relações, aos nossos projectos, ao nosso conforto, etc. É próprio da dimensão ressuscitada da vida não ficar parado à sombra das tristezas e desânimos, mas voltar à luz do sentido profundo das coisas e do bem amoroso que de tudo se pode tirar. Só nesta lógica se entende, por exemplo, a força do perdão e o compromisso com a justiça. Toda a aventura humana, por isso mesmo, é um contínuo realizar da ressurreição que, já acontecida, pede para ser levada a sério na vida de quem espera nesta fé. 

Esta atitude reflecte-se precisamente no “ofício de consolar”, próprio do Ressuscitado, que significa, na linguagem inaciana, levar ao aumento da fé, da esperança e do amor, assente numa experiência de paz e alegria nascidas da intimidade com Deus. [1] E este ofício de Jesus ressuscitado experimenta-se a partir do trato de amizade que os amigos têm quando se consolam uns aos outros. Não poderemos ver aqui a nossa missão como cristãos? O motivo e motor da existência não poderá ser este ministério da consolação? 
Pessoalmente, anima-me muito pensar na vida a partir deste horizonte, que tem um início cheio de vida e deseja trazer essa mesma vida ao mundo concreto em que estou. 

Desafio: O Cardeal Jorge Bergoglio, agora Papa Francisco, fez este apelo a uma nova forma de viver as relações: “Imitemos o nosso Deus, que nos precede e ama primeiro, realizando gestos de proximidade para os nossos irmãos que sofrem solidão, indigência, desemprego, exploração, falta de tecto, desprezo por serem migrantes, doença, isolamento entre os idosos. Dá o primeiro passo e leva, com a tua própria vida, o anúncio: Ele ressuscitou”. Não será isto mesmo a consolação que podemos realizar? 

[1] Chamo consolação, quando na alma se produz alguma moção interior, com a qual vem a alma a inflamar-se no amor de seu Criador e Senhor; e quando, consequentemente, nenhuma coisa criada sobre a face da terra pode amar em si mesma, a não ser no Criador de todas elas. E também, quando derrama lágrimas que a movem ao amor do seu Senhor, quer seja pela dor se seus pecados ou da Paixão de Cristo nosso Senhor, quer por outras coisas directamente ordenadas a seu serviço e louvor. Finalmente, chamo consolação todo o aumento de esperança, fé e caridade e toda a alegria interior que chama e atrai às coisas celestiais e à salvação de sua própria alma, aquietando-a e pacificando-a em seu Criador e Senhor. (EE, 316)

António Valério, sj